_Levanta ou você vai se atrasar pro trabalho - gritou ele de dentro do banheiro - você ainda tem que passar na clínica.
Ísis estava deitada com os olhos abertos, em posição fetal, pensando no que aqueles resultados poderiam revelar. A menstruação atrasada provavelmente indicava um bebê. Não sabia a reação de Pedro caso fosse, então havia feito vários exames para ocultar o de gravidez, que não contara ao marido. Aliás, "marido" era um termo deveras vago, pois não eram casados; moravam juntos havia alguns anos. O relacionamento era visto de fora como perfeito, e também de dentro, por ela, pelo menos. Mantinham a mesma paixão de quando haviam se conhecido, as demonstrações de amor, o carinho, o sexo, tudo desde sempre, perfeito. E ela não queria estragar isso. Trazia dentro de si uma culpa pela menstruação atrasada, mesmo ambos usando preservativos, algo devia ter acontecido. E a culpa era dela.
_Fale alguma coisa - disse Pedro entre um gole de café e outro - está com TPM, é? A brincadeira irônicamente inocente a fez se encolher ainda mais no outro lado da pequena mesa de mármore. Dissimulou um sorriso e um quase inaudível "Claro que não". Se levantou da cadeira, entornou o capuccino em um gole e se mostrou apressada:
_Estou indo. Deixa tudo na pia que na volta eu lavo.
Entrou no carro, acendeu um cigarro. Se perguntou se o fumo faria mal à virtual criança que involuntariamente se formava no útero dela naquele exato momento. Ligou a ignição e mentalizou o caminho da clínica.
Chegou, parou o carro, olhou o relógio: ainda dava tempo. Se amaldiçoou por ser tão pontual - caso tivesse atrasada, poderia adiar a derradeira verdade. Respirou fundo. De resto foi tudo muito rápido. Foi antendida, entregou a requisição, a enfermeira encontrou o exame e passou a ela, que assinou uma guia e voltou ao carro. Acendeu outro cigarro e desenvelopou o papel bem dobrado. O resultado a deixou perplexa.
Faltou o trabalho, ligou dizendo-se doente. Voltou para o pequeno apartamento que dividia com o quase marido, arrumou tudo, sala, cozinha, quarto e, inclusive, suas malas.Rearrumou a vida na sua cabeça, relembrou seus passos até ali, e a resposta era clara. Passou o dia esperando Pedro voltar do trabalho. Na hora de sempre, ele entrou pela porta. Encontrou sua amada inexpressiva no sofá da sala, o fitando com olhos nunca vistos por ele nela antes. Olhos de medo. Sentou-se do lado dela, mudo.
Ela lhe explicou os exames. Contou da menstruação atrasada e do resultado negativo para gravidez. Ele ouvia calado. Tentou interrompê-la uma ou duas vezes, afirmando que nada daquilo acabaria com o que ele sentia por ela, mas Ísis continuava implacável nas explicações:
_Deixa eu terminar, Pedro. Lembra quando brigamos por causa daquela sua ex-namorada? Fiquei com tanto ódio de você ter transado com ela que saí com as meninas, para uma boate, querendo me vingar. Muitas vodkas depois eu estava pronta e me vinguei. Conheci um cara lá, fomos para a casa dele e transamos.
_Eu não me importo, eu só me importo com a gente. Isso é passado...
_Deixa eu terminar, Pedro. - e ele se calou. E ela terminou. - Nunca te contei por saber que você era o homem da minha vida, e eu não queria estragar isso. Mas já tinha estragado e não sabia. Eu transei com ele, e transei sem nenhuma proteção. Acabei esquecendo disso com o tempo, por não dar a mínima importância, mas agora é tarde. Eu tenho AIDS, Pedro. E não posso ter pegado de você, fez esse exame a seis meses.
Agora era ela que não reconhecia os olhos de Pedro. Este encarou o rosto dela, impassível. Olhou os papéis, eram decisivos: HIV POSITIVO, escrito assim, em letras garrafais, em negrito. Foi então que ele suspirou, amassou o papel, levantou-se, jogou-o no lixo, voltou ao sofá, pegou-a pela mão e disse:
_Ísis, eu já falei: o que me importa é a gente. Nós dois. Juntos. E mais nada.
Pedro beijou-a na boca, um beijo longo e molhado, familiar e cúmplice. Pegou-a nos braços e deitou ela cuidadosamente na cama. Tirou-lhe as roupas e fez amor com ela, deixando a camisinha, pela primeira vez em todos aqueles anos, na mesinha da cabeceira.
Monday, May 28, 2007
Tuesday, May 22, 2007
A Safada Princesa Radiante do País Sem-Noção (Ficção)
A Safada Princesa Radiante vivia no país Sem-Noção. Desde cedo, o Rei e a Rainha de Sem-Noção haviam-na ensinado que era a mais bonita e a melhor das criaturas existente no mundo, capaz de fazer e ter tudo o que lhe desse na telha. Ensinaram a ela desde cedo comer bem, gostar de coisas boas e caras (claro, era uma princesa). Nunca a repreendiam em nada de errado que fizesse, a não ser relacionado à etiqueta. Seu pai era um ocupado rei, daqueles que só aparecem para dar presentes, e sua mãe, uma submissa rainha, daquelas que só aparecem pra chamar para o jantar. Sempre tinha tudo o que queria, assim seus pais pregavam que seria certo a uma princesa importante como ela. Presentes brinquedos, roupas; amigos então, nunca faltam às pessoas importantes, não é?
Já saindo da adolescência, ela descobriu o que tanto a inquietava: poderia, dali a diante, escolher um futuro príncipe para seu país (e para ela, claro). Colocava as melhores roupas para ir aos bailes nos luxuosos castelos dos nobres non-senses (nascidos em Sem-Noção eram chamados de non-senses), olhando para todos os lados e descobrindo que a escolha não era tão fácil, principalmente para ela: Não queria só um príncipe.
Como poderia querer só um príncipe se poderia ter mais, se poderia ter tudo? Tudo só para ela? Queria um príncipe e uma princesa. Só para ela.
Logo, nossa Princesa descobriu o prazer ainda na procura. Na primeira noite, um resquício de noção se apoderou dela, dizendo que não poderia escolher os dois na mesma noite. Pegou o rapaz que mais a fascinou, escolheu-o e anunciou como seu namorado oficial. Foi para a cama com ele na mesma noite (a primeira vez de Nossa Alteza), e subiu pelas paredes, descobrindo assim os pazeres carnais que tanto imaginara em suas noites solitárias no palácio real. Mas a idéia de ter também uma princesa não saia-lhe da cabeça. Comentou com o futuro príncipe. Ele, como qualquer nobre, súdito, escravo ou até burguês, adorou a idéia. Saíram agora à caça da futura princesa. Aí, foi mais difícil.
A procura foi tanta - e o sexo com desconhecidas, também - que começaram rumores na sociedade local. Uma notícia maldosa fazia corar e rir: a princesa e o príncipe eram pervertidos sexuais. Estavam à procura de garotas jovens para os atos mais loucos e insanos. Para o espanto de muitos, várias jovens da época se interessaram.
Mas a princesa, logo ela, não conseguia se decidir entre as jovens. A cada noite era uma mais bonita do que a outra, pelas quais ela sentia muito tesão mas nenhum amor, diferente do que sentia pelo príncipe, muito amor mas nenhum tesão. Deu um pé na bunda dele que, indignado por perder toda aquela felicidade e fartura, saiu espalhando boatos ainda mais picantes sobre a nossa futura rainha. Mas a princesa non-sense não perdia a compostura. Danem-se os que diziam, simplesmente queria encontrar o homem e a mulher da sua vida. O problema é que pareciam não existir.
Então, o que já era óbvio para vocês leitores, ela descobriu: o que a princesa gostava mesmo era da sacanagem. Apesar de dizer e acreditar no contrário, acabou por ver que para ela não existia amor sem tesão. Fazer o amor carnal era possuir, era o único momento que acreditava que aquelas pessoas eram realemente dela. Era a forma real de amar. Pelo menos, a única forma que ela conhecia.
O rei e a rainha non-senses morreram sem fazer a mínima idéia de como era a filha. Graças ao puxa-saquismo comum nas côrtes em geral, o reinado da Safada Princesa Radiante seguiu sem problemas, e os boatos ficaram somente para os súditos. Mas foi um reinado solitário. Claro que os bacanais da Safada Princesa Radiante do País Sem-Noção são conhecidos até hoje, mas ela nunca escolheu um príncipe nem uma princesa sequer. Queria tudo e todos, e ironicamente, sozinha acreditava ter conseguido. Possuía todos, como havia sido ensinada que uma princesa merecia. Morreu sozinha no meio de uma suruba (?) e não deixou herdeiros diretos ao trono.
Já saindo da adolescência, ela descobriu o que tanto a inquietava: poderia, dali a diante, escolher um futuro príncipe para seu país (e para ela, claro). Colocava as melhores roupas para ir aos bailes nos luxuosos castelos dos nobres non-senses (nascidos em Sem-Noção eram chamados de non-senses), olhando para todos os lados e descobrindo que a escolha não era tão fácil, principalmente para ela: Não queria só um príncipe.
Como poderia querer só um príncipe se poderia ter mais, se poderia ter tudo? Tudo só para ela? Queria um príncipe e uma princesa. Só para ela.
Logo, nossa Princesa descobriu o prazer ainda na procura. Na primeira noite, um resquício de noção se apoderou dela, dizendo que não poderia escolher os dois na mesma noite. Pegou o rapaz que mais a fascinou, escolheu-o e anunciou como seu namorado oficial. Foi para a cama com ele na mesma noite (a primeira vez de Nossa Alteza), e subiu pelas paredes, descobrindo assim os pazeres carnais que tanto imaginara em suas noites solitárias no palácio real. Mas a idéia de ter também uma princesa não saia-lhe da cabeça. Comentou com o futuro príncipe. Ele, como qualquer nobre, súdito, escravo ou até burguês, adorou a idéia. Saíram agora à caça da futura princesa. Aí, foi mais difícil.
A procura foi tanta - e o sexo com desconhecidas, também - que começaram rumores na sociedade local. Uma notícia maldosa fazia corar e rir: a princesa e o príncipe eram pervertidos sexuais. Estavam à procura de garotas jovens para os atos mais loucos e insanos. Para o espanto de muitos, várias jovens da época se interessaram.
Mas a princesa, logo ela, não conseguia se decidir entre as jovens. A cada noite era uma mais bonita do que a outra, pelas quais ela sentia muito tesão mas nenhum amor, diferente do que sentia pelo príncipe, muito amor mas nenhum tesão. Deu um pé na bunda dele que, indignado por perder toda aquela felicidade e fartura, saiu espalhando boatos ainda mais picantes sobre a nossa futura rainha. Mas a princesa non-sense não perdia a compostura. Danem-se os que diziam, simplesmente queria encontrar o homem e a mulher da sua vida. O problema é que pareciam não existir.
Então, o que já era óbvio para vocês leitores, ela descobriu: o que a princesa gostava mesmo era da sacanagem. Apesar de dizer e acreditar no contrário, acabou por ver que para ela não existia amor sem tesão. Fazer o amor carnal era possuir, era o único momento que acreditava que aquelas pessoas eram realemente dela. Era a forma real de amar. Pelo menos, a única forma que ela conhecia.
O rei e a rainha non-senses morreram sem fazer a mínima idéia de como era a filha. Graças ao puxa-saquismo comum nas côrtes em geral, o reinado da Safada Princesa Radiante seguiu sem problemas, e os boatos ficaram somente para os súditos. Mas foi um reinado solitário. Claro que os bacanais da Safada Princesa Radiante do País Sem-Noção são conhecidos até hoje, mas ela nunca escolheu um príncipe nem uma princesa sequer. Queria tudo e todos, e ironicamente, sozinha acreditava ter conseguido. Possuía todos, como havia sido ensinada que uma princesa merecia. Morreu sozinha no meio de uma suruba (?) e não deixou herdeiros diretos ao trono.
Wednesday, May 09, 2007
Sobrestantivos
Explicaçãozinha: Conversando com a Nê pelo telefone, comentando que eu gostava de fazer Haicais (pequenos poemas tradicionalmente japoneses, compostos de versos 5/7/5 - falarei mais sobre depois), como "passatempo literário", ela me passou um exercício estilístico dado por um professor seu: descrever situações somente usando substantivos. Na hora, adorei a idéia (que minha ignorância não conhecia), e automaticamente ela me sugeriu que fizesse um. Resultado:
Manhã, sol. Feriado, solidão. Garagem, moto. Chave, ignição, motor. Acelerador, barulho. Moto, estrada. Vento, rosto. Capacete, cotovelo. Vento, olhos. Estrada, carros, velocidade. Moto, velocidade, poder. Asfalto, placas, números. Moto. Velocidade velocidade, poder poder. Acostamento, árvores, árvores, árvores... Caminho, cachorro. Desviada, capotagem, queda, asfalto, cabeça, árvore. Morte.
P.S. 1: Será que era isso?
Manhã, sol. Feriado, solidão. Garagem, moto. Chave, ignição, motor. Acelerador, barulho. Moto, estrada. Vento, rosto. Capacete, cotovelo. Vento, olhos. Estrada, carros, velocidade. Moto, velocidade, poder. Asfalto, placas, números. Moto. Velocidade velocidade, poder poder. Acostamento, árvores, árvores, árvores... Caminho, cachorro. Desviada, capotagem, queda, asfalto, cabeça, árvore. Morte.
P.S. 1: Será que era isso?
Sunday, May 06, 2007
Eu? Escrever Sobre Relacionamentos?
Fulana amava Beltrano, ele a amava de volta mas nunca a disse isso. Eles eventualmente se separaram. Fulana conheceu Sicrano. Este dizia que a amava, e amava mesmo. Ela o amou de volta. Se casaram, viveram juntos até morrerem.
Fulana amava Beltrano. Ele a amava de volta e dizia isso a ela. Fulana desejava uma mulher, Beltrano não se importava, gostava que ela desejasse uma mulher. Fulana e Beltrano se separaram, não porquê ela desejava uma mulher, mas por um motivo ignorado. Ela continuou a desejar outra mulher e conheceu Sicrana. Sicrana e Fulana tiveram um caso. Sicrana passou a amar Fulana, e disse isso a ela. Mas Fulana não queria o amor de Sicrana. Fulana reencontrou Beltrano em uma festa, ambos bêbados, e acabaram por ficar juntos naquela noite e por mais incontáveis anos.
Beltrano nunca havia tido uma mulher. Imaginava como seria, já tinha chegado perto, mas tê-la fisicamente, nunca. Algumas mulheres já haviam-no amado, mas nenhuma se entregado. Conheceu Fulana. Ela nunca havia tido um homem. Se amaram. Ficaram juntos deveras anos, se casaram e, finalmente, se entregaram mutuamente. Se separaram por motivos que só competem aos dois, e se casaram novamente, ambos com pessoas que já haviam tido muitas outras pessoas.
Beltrano e Fulana se conheceram ainda colegiais. Trocavam cartinhas de amor, ficavam horas no telefone, namoraram por anos a fio até que Fulana engravidou. Beltrano se mudou para os Estados Unidos.
Beltrano e Fulana eram bem casados e conservados, filhos adolescentes bonitos e inteligentes. Ganhavam muito bem, trocavam de carro todo ano, cobertura à beira mar. Realizados profissionalmente, nomes ilustres da sociedade local. Beltrano conheceu uma Sicrana de 22 anos e nunca mais foi visto nas colunas sociais e nem na cobertura à beira mar.
Beltrano e Fulana eram jovens, bonitos e filhos de pais ricos. Criados juntos, se conheciam desde sempre. Primeiro namorados, noivaram sem demora. Casamento marcado. Sicrano cortava a grama no clube frequentado por Beltrano e Fulana nos fins de semana, onde jogavam tênis. Fulana pensou nunca ter visto homem como Sicrano, Sicrano pensou o mesmo sobre Beltrano. Até que ela o olhou uma segunda vez. Acaso do destino, Sicrano olhava justamente para Beltrano. Fulana desistiu de Sicrano, mas existiam outros jardineiros. 10 anos depois, Beltrano pedia o divórcio, ao flagrar Fulana na cama com o jardineiro da casa deles.
P.S. 1: É complicado demais até além da conta.
P.S.2: Me pediram pra escrever sobre relacionamentos. Mas é tão complicado...
Fulana amava Beltrano. Ele a amava de volta e dizia isso a ela. Fulana desejava uma mulher, Beltrano não se importava, gostava que ela desejasse uma mulher. Fulana e Beltrano se separaram, não porquê ela desejava uma mulher, mas por um motivo ignorado. Ela continuou a desejar outra mulher e conheceu Sicrana. Sicrana e Fulana tiveram um caso. Sicrana passou a amar Fulana, e disse isso a ela. Mas Fulana não queria o amor de Sicrana. Fulana reencontrou Beltrano em uma festa, ambos bêbados, e acabaram por ficar juntos naquela noite e por mais incontáveis anos.
Beltrano nunca havia tido uma mulher. Imaginava como seria, já tinha chegado perto, mas tê-la fisicamente, nunca. Algumas mulheres já haviam-no amado, mas nenhuma se entregado. Conheceu Fulana. Ela nunca havia tido um homem. Se amaram. Ficaram juntos deveras anos, se casaram e, finalmente, se entregaram mutuamente. Se separaram por motivos que só competem aos dois, e se casaram novamente, ambos com pessoas que já haviam tido muitas outras pessoas.
Beltrano e Fulana se conheceram ainda colegiais. Trocavam cartinhas de amor, ficavam horas no telefone, namoraram por anos a fio até que Fulana engravidou. Beltrano se mudou para os Estados Unidos.
Beltrano e Fulana eram bem casados e conservados, filhos adolescentes bonitos e inteligentes. Ganhavam muito bem, trocavam de carro todo ano, cobertura à beira mar. Realizados profissionalmente, nomes ilustres da sociedade local. Beltrano conheceu uma Sicrana de 22 anos e nunca mais foi visto nas colunas sociais e nem na cobertura à beira mar.
Beltrano e Fulana eram jovens, bonitos e filhos de pais ricos. Criados juntos, se conheciam desde sempre. Primeiro namorados, noivaram sem demora. Casamento marcado. Sicrano cortava a grama no clube frequentado por Beltrano e Fulana nos fins de semana, onde jogavam tênis. Fulana pensou nunca ter visto homem como Sicrano, Sicrano pensou o mesmo sobre Beltrano. Até que ela o olhou uma segunda vez. Acaso do destino, Sicrano olhava justamente para Beltrano. Fulana desistiu de Sicrano, mas existiam outros jardineiros. 10 anos depois, Beltrano pedia o divórcio, ao flagrar Fulana na cama com o jardineiro da casa deles.
P.S. 1: É complicado demais até além da conta.
P.S.2: Me pediram pra escrever sobre relacionamentos. Mas é tão complicado...
Saturday, April 28, 2007
Ela faz tudo, eu não faço nada.
Eu não faço nada, ela faz tudo.
trabalha em dois lugares,
e eu mal estudo.
De cima do salto ela se impõe
Quem vê de baixo só supõe:
O quanto aquela mulher já viveu?
ao que tanto se opõe?
Sua independência só depende dela,
e não da beleza.
Mas não se engane, ela é bela.
Vai além disso,
ultrapassa o óbvio
de um rostinho bonito.
E eu sei que faz de propósito.
Não precisa de ninguém,
não me tem por isso,
e ái de quem pensa que a tem.
Mais que justo o orgulho
do que já conquistou.
"Ninguém me dá nada"
uma vez me falou,
presente de si mesma
na hora me justificou.
De humor tão inteligente
que a risada subseqüente
se torna bruta.
Opiniões tem muitas, mas não demais.
Sei o que ela pensa de mim,
com um leve apreço sente pena:
"um sem-futuro que não vale a pena
nem usa a inteligência que tem,
ri tanto que não leva a sério
a seriedade de ninguém".
Não é bem assim.
Mas que culpa tenho eu,
de só pensar antes de escrever?
Ou de usar minha cabeça assim:
para traduzir em versos erráticos
o que seus sentidos dizem
sobre ela
para mim.
trabalha em dois lugares,
e eu mal estudo.
De cima do salto ela se impõe
Quem vê de baixo só supõe:
O quanto aquela mulher já viveu?
ao que tanto se opõe?
Sua independência só depende dela,
e não da beleza.
Mas não se engane, ela é bela.
Vai além disso,
ultrapassa o óbvio
de um rostinho bonito.
E eu sei que faz de propósito.
Não precisa de ninguém,
não me tem por isso,
e ái de quem pensa que a tem.
Mais que justo o orgulho
do que já conquistou.
"Ninguém me dá nada"
uma vez me falou,
presente de si mesma
na hora me justificou.
De humor tão inteligente
que a risada subseqüente
se torna bruta.
Opiniões tem muitas, mas não demais.
Sei o que ela pensa de mim,
com um leve apreço sente pena:
"um sem-futuro que não vale a pena
nem usa a inteligência que tem,
ri tanto que não leva a sério
a seriedade de ninguém".
Não é bem assim.
Mas que culpa tenho eu,
de só pensar antes de escrever?
Ou de usar minha cabeça assim:
para traduzir em versos erráticos
o que seus sentidos dizem
sobre ela
para mim.
Friday, April 27, 2007
Sicrano (Ficção)
Fulano saía de casa todas as noites. Segunda, ia para um barzinho muito estiloso relativamente perto de sua casa, que ficava numa praia afastada da Cidade Grande. Na terça, voltava ao mesmo barzinho, e muitas vezes com seus amigos, já bêbados, rumavam para uma casa da luz vermelha nos arredores, afim de pechinchar umas mulheres de vida "fácil" a precinhos camaradas.
Na quarta-feira, sempre tinha um show de uma banda desconhecida local, ou vinda da Cidade Grande, em outro bar, esse mais próximo um pouco da Cidade Grande. Na quinta, ia para a casa de uma eventual namorada arrumada na night dos outros dias, e quando não, ia pra "Noite dos Solteiros" na boate Enkontrus, onde sempre "enkontrava" os mesmos amigos dos outros dias e, quem sabe, até uma eventual namorada para visitar na próxima quinta-feira.
Na sexta-feira - ah a sexta-feira - era o grande dia. Todas as pessoas que NÂO saíam nos outros dias podiam ser encontrados em diversos pontos da cidade, todos os já citados e mais alguns, tipo boates e casas de shows. Muitas vezes era reservada para a sexta os shows principais da semana na Cidade Grande, de todos os gêneros musicais. Fulano e seus amigos discutiam tomando umas cervejas em algum posto da cidade e depois seguiam para o local decidido.
Sábado, Fulano acordava completamente ressacado. A cabeça doía, corpo também, a alma mais ainda. Esquecia de algumas coisas da noite anterior, e normalmente não se importava nem um pouco com isso. Se importava era com o que lembrava. Mas isso fica pra depois, porque seu melhor amigo, Beltrano, liga no sábado a tarde, também ressacado, para combinar a noite seguinte. Marcaram no "mesmo posto de gasolina"; de lá, resolveram ir pra um show de uma banda inusitada, que misturava ritmos da cultura local com uma batida mais atual, eletrônica. Encheram a cara, vomitaram, encheram a cara novamente e voltaram completamente bêbados para casa, dirigindo pela estrada.
O domingo começou igualmente ressacado. Cabeça de Galo para a ressaca, almoço da casa da avó com a família, churasco, mais bebida. "Cerveja que é mais leve" ponderou Fulado. Beltrano concordou, entornaram aos gargalos, livraram-se da ressaca. Foi anoitecendo, dormiram no mesmo dia que acordaram, única vez na semana, e já acordaram prontos para outra segunda-feira.
Na quarta-feira, sempre tinha um show de uma banda desconhecida local, ou vinda da Cidade Grande, em outro bar, esse mais próximo um pouco da Cidade Grande. Na quinta, ia para a casa de uma eventual namorada arrumada na night dos outros dias, e quando não, ia pra "Noite dos Solteiros" na boate Enkontrus, onde sempre "enkontrava" os mesmos amigos dos outros dias e, quem sabe, até uma eventual namorada para visitar na próxima quinta-feira.
Na sexta-feira - ah a sexta-feira - era o grande dia. Todas as pessoas que NÂO saíam nos outros dias podiam ser encontrados em diversos pontos da cidade, todos os já citados e mais alguns, tipo boates e casas de shows. Muitas vezes era reservada para a sexta os shows principais da semana na Cidade Grande, de todos os gêneros musicais. Fulano e seus amigos discutiam tomando umas cervejas em algum posto da cidade e depois seguiam para o local decidido.
Sábado, Fulano acordava completamente ressacado. A cabeça doía, corpo também, a alma mais ainda. Esquecia de algumas coisas da noite anterior, e normalmente não se importava nem um pouco com isso. Se importava era com o que lembrava. Mas isso fica pra depois, porque seu melhor amigo, Beltrano, liga no sábado a tarde, também ressacado, para combinar a noite seguinte. Marcaram no "mesmo posto de gasolina"; de lá, resolveram ir pra um show de uma banda inusitada, que misturava ritmos da cultura local com uma batida mais atual, eletrônica. Encheram a cara, vomitaram, encheram a cara novamente e voltaram completamente bêbados para casa, dirigindo pela estrada.
O domingo começou igualmente ressacado. Cabeça de Galo para a ressaca, almoço da casa da avó com a família, churasco, mais bebida. "Cerveja que é mais leve" ponderou Fulado. Beltrano concordou, entornaram aos gargalos, livraram-se da ressaca. Foi anoitecendo, dormiram no mesmo dia que acordaram, única vez na semana, e já acordaram prontos para outra segunda-feira.
Sunday, April 22, 2007
Meu problema é escrever (Sei que alguém vai pensar isso hehehehhe)
O problema de ser sempre engraçado, é que não te levam a sério quando você fala sério.
O problema de ser sempre sério é que também não te levam a sério, além de rirem de você tanto quanto se fosse sempre engraçado.
O problema de conversar com quem fala muito é um só: ouvir.
O problema de quem fala muito é um só: falar.
O problema de acordar cedo é dormir cedo.
O problema de acordar tarde é que Deus não ajuda.
O problema de se achar é se perder pela boca na maioria das vezes.
O problema de se perder é chegar atrasado.
O problema de não ter conta em banco é não ter cheque especial.
O problema de ter conta em banco é usar o cheque especial.
O problema de não votar é ser acusado de ser o responsável pelo mal estar do país.
O problema de votar é exatamente o mesmo.
O problema de falar rápido problema é acabar dizendo 'pobrema'.
O problema de ouvir 'pobrema' é segurar a gargalhada.
O problema de não ter um bom padrão de vida é lutar todos os dias para tê-lo.
O problema de ter um bom padrão de vida é lutar todos os dias para mantê-lo.
O problema de dormir é acordar.
O problema de não acordar é estar morto. (ou em coma, ou cataléptico; enfim, você entendeu.)
O problema de me ler é ter que me aturar.
O problema de me aturar é acabar me lendo denovo.
O problema de escrever sobre os problemas é que não resolve nenhum problema.
O problema de não escrever sobre os problemas é acabar tendo problemas do mesmo jeito.
O problema de ser sempre sério é que também não te levam a sério, além de rirem de você tanto quanto se fosse sempre engraçado.
O problema de conversar com quem fala muito é um só: ouvir.
O problema de quem fala muito é um só: falar.
O problema de acordar cedo é dormir cedo.
O problema de acordar tarde é que Deus não ajuda.
O problema de se achar é se perder pela boca na maioria das vezes.
O problema de se perder é chegar atrasado.
O problema de não ter conta em banco é não ter cheque especial.
O problema de ter conta em banco é usar o cheque especial.
O problema de não votar é ser acusado de ser o responsável pelo mal estar do país.
O problema de votar é exatamente o mesmo.
O problema de falar rápido problema é acabar dizendo 'pobrema'.
O problema de ouvir 'pobrema' é segurar a gargalhada.
O problema de não ter um bom padrão de vida é lutar todos os dias para tê-lo.
O problema de ter um bom padrão de vida é lutar todos os dias para mantê-lo.
O problema de dormir é acordar.
O problema de não acordar é estar morto. (ou em coma, ou cataléptico; enfim, você entendeu.)
O problema de me ler é ter que me aturar.
O problema de me aturar é acabar me lendo denovo.
O problema de escrever sobre os problemas é que não resolve nenhum problema.
O problema de não escrever sobre os problemas é acabar tendo problemas do mesmo jeito.
Saturday, April 07, 2007
Mentiras que as Mulheres Contam (Crônica/Ficção)
O ilustre Luis Fernando Veríssimo vai me desculpar (por favor, Mestre!), mas surrupiei descaradamente o título de uma de suas mais famosas obras e a adaptei para a crônica (texto? ensaio? minhas letrinhas?) seguinte. Não quero ser machista nem nada, apenas expor causos que às vezes acontecem na vida de qualquer homem que se disponha a convidar uma mulher para sair. Muitas vezes, essas aproximações não são bem sucedidas, por diversos motivos que não vêm ao caso. O que vem ao caso é como algumas mulheres conseguem se desfazer da proposta de maneira hábil, fazendo com as palavras mais ou menos o que um samurai faz com sua espada: cortar. E cortar da maneira mais rápida e indolor possível.
Existe algumas saídas para um convite que são tidas como "padrão" por elas, como no exemplo seguinte:
Ele: _Vamos sair no sábado à noite?
Ela: _Pode ser...
A resposta é meio vaga, então normalmente é seguido pelo reforço:
_Eu te ligo.
Que normalmente nunca é seguido por um telefonema.
Às vezes o cara pode sentir a irresistível vontade de provocar a mulher, dizendo:
_Nem me ligou, hein?
Ela dispara a desculpa das desculpas, perfeira para essa situação:
_Fui assaltada, roubaram meu telefone e perdi o número de todo o mundo.
Ouviu bem o que ela disse? De todo o mundo. De todo o planeta terra, inclusive o seu, mané. E nem pense em dar denovo. Não adiantaria absolutamente nada.
Existe também um enorme leque de respostas muito convenientes com cada situação. Um bom exemplo é nas vésperas de um feriado:
Ele: _O que você vai fazer nesse feriado?
Ela: _Não tenho plano nenhum.
Ele: _Vamos no cinema?
Ela: _Humm..
O "Humm" é para dar a impressão que ela está analizando o convite, mas na verdade ela está inventando a desculpa. Novamente:
Ela: _Humm... Estou esperando a resposta de umas amigas pra viajar pra praia de Jaguatitica. Se não for, "eu te ligo".
Notem que em um momento ela não tinha planos, provavelmente por não ter previsto o indesejado convite. Quando viu, era tarde demais e se saiu com uma razoável meia-verdade, passível de explicação caso o "convidadeiro" proteste. E se ele protestar realmente, ela vai falar tanto no ouvido dele, explicando tim-tim por tim-tim de tudo relacionado a viagem (imaginária, assim como a praia), que o cara vai se dar por feliz com o fora - e com o blá blá blá, ela ainda se vê livre de futuros convites indesejados desse cidadão.
E notem ainda que está lá o "eu te ligo" denovo. Esse "eu te ligo" é fatal. Ao ouví-lo, pode dar o assunto por encerrado. Alguns caras tentam, sem sucesso, argumentar que ela não tem o telefone dele. Não adianta nada. Normalmente, a essa altura ela já está prestando atenção a outra coisa, que não é o que o cara está dizendo. O argumento se perde no ar, feito fumaça. Em última hipótese, ela pega o celular demonstrando que vai gravar o número na agenda. Enquanto o esperançoso mané (se acredita que ela vai ligar, é mané) fala o número, ela está checando se tem mensagens ou ligações novas. Anotado?
Tem também uma resposta muito usada pelas mulheres, que fica sem argumento algum da parte masculina. É o forte:
_Estou me sentindo mal.
Ou a variante:
_Estou doente.
Ou ainda a assustadora:
_Estou com TPM, porra!
Estes são normalmente usados para desmarcar encontros que ela previamente aceitou por não encontrar a desculpa certa na hora certa. Então, provavelmente, se consulta com algumas amigas, que já usaram o recurso com indiscutível sucesso, e então aproveitam para testá-lo. Sempre dá certo com elas também, e assim, passam adiante o conhecimento a novas amigas sem timing criativo.
Existem ainda casos mais arriscados em eficácia, por que deixam o convite em aberto (se o cara for muito chato, ele insistirá até ela usar uma das táticas já relacionadas acima). Esse recurso consiste na mulher, habilmente, conduzir a conversa para outro patamar, mudando de assunto. Existem duas maneiras conhecidas:
Uma mais sutil:
Ele: Quer pegar um cinema?
Ela: Qual filme?
Ele: O Último Rei da Escócia.
Ela: Esse filme existe mesmo?
Ele: Claro, é um filme sobre sobre o ditador Idi Amin, de um país africano, e que ganhou o Oscar de melhor ator...
Nessa hora, o convite já foi para os caralheos há muito tempo. Ou ela sai de perto do cara, ou começa um assunto pegando carona no que ele mesmo iniciou sem se dar conta da armadilha. Nesse caso específico, poderia ser sobre a fome na África, ou como os países ricos exploram os pobres, et cetera, et cetera.
E a outra maneira, essa mais brusca, de sair do convite na mesma tática, normalmente é usada em casos do cara ser um tremendo de um mala:
Mala: _Quer pegar um cineminha, gatinha?
Ela atira, sem dó do mala, e ainda com voz de choro:
_Pô, ficou sabendo que o Marcão morreu?
Mala embasbacado, boca aberta e olhos arregalados, cara de quem levou um sacode:
_É mermo?
Desarmado, o mala não sabe mais o que dizer, só tinha decorado a primeira frase. O convite é sufocado pelo silêncio do próprio mala, que procura sem sucesso um pensamento para rebater a notícia bombástica. Não é bombástica para ele, que nem sabe quem é Marcão (e que provavelmente nem existe). É bombástica para o convite e para o raciocínio neanderthal do "sem alça". Como se pode refazer um convite nessas condições? Morte súbita para o convite, só resta ir tentar com outra.
Como podem ver, as mulheres (sempre elas!) merecem o aplauso masculino. São hábeis, muitas vezes colocadas em situações constrangedoras pelos homens que as cercam e saem disso de uma maneira tangencial, sempre diplomática, digna das melhores embaixadoras (ou será "embaixatrizes"?) do mundo.
Viva às mulheres, elas merecem!!!
P.S. Os acontecimentos retratados aqui são meramente ilustrativos; Qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência et cetera.
P.S. 1: Esse texto foi originalmente escrito no Dia Mundial da Mulher, mas eu tinha perdido e achei hoje de manhã. Claro que atualizei-o e agora, podem rir à vontade (pretensioso, não?)
P.S. 2: Por favor, não tenham o bom humor de levar isso a sério, nem considero "mentiras" , foi só uma brincadeira, sem ofensas. (O Veríssimo não precisa se explicar, mas eu sim.)
Existe algumas saídas para um convite que são tidas como "padrão" por elas, como no exemplo seguinte:
Ele: _Vamos sair no sábado à noite?
Ela: _Pode ser...
A resposta é meio vaga, então normalmente é seguido pelo reforço:
_Eu te ligo.
Que normalmente nunca é seguido por um telefonema.
Às vezes o cara pode sentir a irresistível vontade de provocar a mulher, dizendo:
_Nem me ligou, hein?
Ela dispara a desculpa das desculpas, perfeira para essa situação:
_Fui assaltada, roubaram meu telefone e perdi o número de todo o mundo.
Ouviu bem o que ela disse? De todo o mundo. De todo o planeta terra, inclusive o seu, mané. E nem pense em dar denovo. Não adiantaria absolutamente nada.
Existe também um enorme leque de respostas muito convenientes com cada situação. Um bom exemplo é nas vésperas de um feriado:
Ele: _O que você vai fazer nesse feriado?
Ela: _Não tenho plano nenhum.
Ele: _Vamos no cinema?
Ela: _Humm..
O "Humm" é para dar a impressão que ela está analizando o convite, mas na verdade ela está inventando a desculpa. Novamente:
Ela: _Humm... Estou esperando a resposta de umas amigas pra viajar pra praia de Jaguatitica. Se não for, "eu te ligo".
Notem que em um momento ela não tinha planos, provavelmente por não ter previsto o indesejado convite. Quando viu, era tarde demais e se saiu com uma razoável meia-verdade, passível de explicação caso o "convidadeiro" proteste. E se ele protestar realmente, ela vai falar tanto no ouvido dele, explicando tim-tim por tim-tim de tudo relacionado a viagem (imaginária, assim como a praia), que o cara vai se dar por feliz com o fora - e com o blá blá blá, ela ainda se vê livre de futuros convites indesejados desse cidadão.
E notem ainda que está lá o "eu te ligo" denovo. Esse "eu te ligo" é fatal. Ao ouví-lo, pode dar o assunto por encerrado. Alguns caras tentam, sem sucesso, argumentar que ela não tem o telefone dele. Não adianta nada. Normalmente, a essa altura ela já está prestando atenção a outra coisa, que não é o que o cara está dizendo. O argumento se perde no ar, feito fumaça. Em última hipótese, ela pega o celular demonstrando que vai gravar o número na agenda. Enquanto o esperançoso mané (se acredita que ela vai ligar, é mané) fala o número, ela está checando se tem mensagens ou ligações novas. Anotado?
Tem também uma resposta muito usada pelas mulheres, que fica sem argumento algum da parte masculina. É o forte:
_Estou me sentindo mal.
Ou a variante:
_Estou doente.
Ou ainda a assustadora:
_Estou com TPM, porra!
Estes são normalmente usados para desmarcar encontros que ela previamente aceitou por não encontrar a desculpa certa na hora certa. Então, provavelmente, se consulta com algumas amigas, que já usaram o recurso com indiscutível sucesso, e então aproveitam para testá-lo. Sempre dá certo com elas também, e assim, passam adiante o conhecimento a novas amigas sem timing criativo.
Existem ainda casos mais arriscados em eficácia, por que deixam o convite em aberto (se o cara for muito chato, ele insistirá até ela usar uma das táticas já relacionadas acima). Esse recurso consiste na mulher, habilmente, conduzir a conversa para outro patamar, mudando de assunto. Existem duas maneiras conhecidas:
Uma mais sutil:
Ele: Quer pegar um cinema?
Ela: Qual filme?
Ele: O Último Rei da Escócia.
Ela: Esse filme existe mesmo?
Ele: Claro, é um filme sobre sobre o ditador Idi Amin, de um país africano, e que ganhou o Oscar de melhor ator...
Nessa hora, o convite já foi para os caralheos há muito tempo. Ou ela sai de perto do cara, ou começa um assunto pegando carona no que ele mesmo iniciou sem se dar conta da armadilha. Nesse caso específico, poderia ser sobre a fome na África, ou como os países ricos exploram os pobres, et cetera, et cetera.
E a outra maneira, essa mais brusca, de sair do convite na mesma tática, normalmente é usada em casos do cara ser um tremendo de um mala:
Mala: _Quer pegar um cineminha, gatinha?
Ela atira, sem dó do mala, e ainda com voz de choro:
_Pô, ficou sabendo que o Marcão morreu?
Mala embasbacado, boca aberta e olhos arregalados, cara de quem levou um sacode:
_É mermo?
Desarmado, o mala não sabe mais o que dizer, só tinha decorado a primeira frase. O convite é sufocado pelo silêncio do próprio mala, que procura sem sucesso um pensamento para rebater a notícia bombástica. Não é bombástica para ele, que nem sabe quem é Marcão (e que provavelmente nem existe). É bombástica para o convite e para o raciocínio neanderthal do "sem alça". Como se pode refazer um convite nessas condições? Morte súbita para o convite, só resta ir tentar com outra.
Como podem ver, as mulheres (sempre elas!) merecem o aplauso masculino. São hábeis, muitas vezes colocadas em situações constrangedoras pelos homens que as cercam e saem disso de uma maneira tangencial, sempre diplomática, digna das melhores embaixadoras (ou será "embaixatrizes"?) do mundo.
Viva às mulheres, elas merecem!!!
P.S. Os acontecimentos retratados aqui são meramente ilustrativos; Qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência et cetera.
P.S. 1: Esse texto foi originalmente escrito no Dia Mundial da Mulher, mas eu tinha perdido e achei hoje de manhã. Claro que atualizei-o e agora, podem rir à vontade (pretensioso, não?)
P.S. 2: Por favor, não tenham o bom humor de levar isso a sério, nem considero "mentiras" , foi só uma brincadeira, sem ofensas. (O Veríssimo não precisa se explicar, mas eu sim.)
Friday, February 02, 2007
Mr. Bojangles Two Died Too (Quase-Ficção)
É, foi o que aconteceu. Quem já leu o blog alguma vez ouviu falar do Mr. Bojangles 2. Ele foi o Beta que eu comprei pra substituir o Mr. Bojangles, o meu peixinho suicida que eu peguei em uma feira de animais de estimação. Recapitulando, ele se jogou pra fora do aquário-pote de maionese em que vivia, depois de uma rápida mas marcante presença na minha vida. Leia mais a uns 3 ou 4 posts abaixo, no texto intitulado Mr.Bojangles (Ficção).
Bom, como eu ia dizendo, o Mr. Bojangles 2 morreu. Ele morreu sem ar, segundo me disseram, a água estava sem oxigênio. Eu me pergunto como é que a água estava sem oxigênio se ainda era água? (só testando: água = H2O, portanto, sem oxigênio, não seria mais água, correto?). Enfim, cheguei em casa e estava ele boiando no aquário que eu tinha comprado, soltando faíscas azuis de suas escamas, ainda parecendo estar vivo. Despejei a comida. Quando notei que ele não comeu, descobri (nossa que observador!) que o peixe estava morto.
Retirei cuidadosamente ele da água, e, na ausência da caixa de fósforos para velá-lo assim como seu antecessor, resolvi jogá-lo na privada sem caixa mesmo. Parei em frente ao vaso, pensei na canção que dera nome aos dois, cantarolei baixinho e com muita dó "mister bojangles, daaaaaaaaance" e joguei-o. Nesse exato momento, senti algo se tremendo na minha mão. O peixinho se debateu uma vez no exato momento que o atirava de encontro ao jazigo de porcelana. Ainda tentei pegá-lo no ar umas 2 vezes, mas foi em vão.
Mr. Bojangles 2 mergulhou, com a habilidade de um saltador olímpico - daqueles que pulam do trampolim em acrobacias fenomenais (esqueci o nome do esporte agora) - e "blup", fez o barulinho caindo na água. Eu estava de boca aberta.
Como teria sobrevivido Mr. Bojangles 2? O que o teria feito não se debater hora nenhuma na minha mão enquanto eu o levava ao túmulo? Será que estava treinando para respirar fora dágua? Eu nunca vou saber, mas a questão é que eu não tive coragem de dar a descarga com o pobrezinho vivo ali dentro. Não mesmo.
Interditei o banheiro, ninguém mais o usa, e eu, todos os dias, coloco comidinha-para-peixes-carnívoros dentro daquele vaso sanitário. E ali vive contente o Mr. Bojanges 2.
P.S. 0 Pulem e/ou desconsiderem os dois poeminhas idiotas abaixo.
P.S. 1 Só me pergunto como eu vou fazer para trocar a água quando ela sujar.
P.S. 2 Leia a história do Mr. Bojangles original, é mais interessante ainda que essa. valew.
P.S. 3 Me lembraram agora que o nome do esporte é Saltos Ornamentais.
P.S. 4 A escrita está lastimável, me perdoem. Depois eu dou uma guaribada.
Bom, como eu ia dizendo, o Mr. Bojangles 2 morreu. Ele morreu sem ar, segundo me disseram, a água estava sem oxigênio. Eu me pergunto como é que a água estava sem oxigênio se ainda era água? (só testando: água = H2O, portanto, sem oxigênio, não seria mais água, correto?). Enfim, cheguei em casa e estava ele boiando no aquário que eu tinha comprado, soltando faíscas azuis de suas escamas, ainda parecendo estar vivo. Despejei a comida. Quando notei que ele não comeu, descobri (nossa que observador!) que o peixe estava morto.
Retirei cuidadosamente ele da água, e, na ausência da caixa de fósforos para velá-lo assim como seu antecessor, resolvi jogá-lo na privada sem caixa mesmo. Parei em frente ao vaso, pensei na canção que dera nome aos dois, cantarolei baixinho e com muita dó "mister bojangles, daaaaaaaaance" e joguei-o. Nesse exato momento, senti algo se tremendo na minha mão. O peixinho se debateu uma vez no exato momento que o atirava de encontro ao jazigo de porcelana. Ainda tentei pegá-lo no ar umas 2 vezes, mas foi em vão.
Mr. Bojangles 2 mergulhou, com a habilidade de um saltador olímpico - daqueles que pulam do trampolim em acrobacias fenomenais (esqueci o nome do esporte agora) - e "blup", fez o barulinho caindo na água. Eu estava de boca aberta.
Como teria sobrevivido Mr. Bojangles 2? O que o teria feito não se debater hora nenhuma na minha mão enquanto eu o levava ao túmulo? Será que estava treinando para respirar fora dágua? Eu nunca vou saber, mas a questão é que eu não tive coragem de dar a descarga com o pobrezinho vivo ali dentro. Não mesmo.
Interditei o banheiro, ninguém mais o usa, e eu, todos os dias, coloco comidinha-para-peixes-carnívoros dentro daquele vaso sanitário. E ali vive contente o Mr. Bojanges 2.
P.S. 0 Pulem e/ou desconsiderem os dois poeminhas idiotas abaixo.
P.S. 1 Só me pergunto como eu vou fazer para trocar a água quando ela sujar.
P.S. 2 Leia a história do Mr. Bojangles original, é mais interessante ainda que essa. valew.
P.S. 3 Me lembraram agora que o nome do esporte é Saltos Ornamentais.
P.S. 4 A escrita está lastimável, me perdoem. Depois eu dou uma guaribada.
Tuesday, January 16, 2007
Grande Coisa
Doce ilusão, agora tão amarga,
nosso pacto foi 'pra sempre',
mas agora não é nada.
Para durar era bom demais,
para acabar era mais capaz,
como tudo que é perfeito e que
sucumbe à imperfeição da paz.
"E quanto a isso, o que se faz?"
"NADA" - respondo ao nobre rapaz,
que me pergunta, fora de hora,
se tinha sido eu um capataz.
Completei que eu nada tinha sido,
a não ser um inocente menino,
por ter entregado de bandeja
meu coração, agora falecido.
Ainda bombeia, convalecido,
o sangue por ela bebido,
mas até hoje só com meia-força,
porque por ela eu fui esquecido.
E tenho agora, novas notícias:
Por ela fui lembrado; e que,
por minhas letrinhas fictícias,
para sempre serei amado.
Grande coisa.
nosso pacto foi 'pra sempre',
mas agora não é nada.
Para durar era bom demais,
para acabar era mais capaz,
como tudo que é perfeito e que
sucumbe à imperfeição da paz.
"E quanto a isso, o que se faz?"
"NADA" - respondo ao nobre rapaz,
que me pergunta, fora de hora,
se tinha sido eu um capataz.
Completei que eu nada tinha sido,
a não ser um inocente menino,
por ter entregado de bandeja
meu coração, agora falecido.
Ainda bombeia, convalecido,
o sangue por ela bebido,
mas até hoje só com meia-força,
porque por ela eu fui esquecido.
E tenho agora, novas notícias:
Por ela fui lembrado; e que,
por minhas letrinhas fictícias,
para sempre serei amado.
Grande coisa.
Wednesday, January 10, 2007
(Nosso) Flerte
Olha pra mim, assim, sei que não vai ser tanto...
Não precisa ficar comigo até o fim, vai ficando.
Com presente, o nosso futuro vai se formando.
Sorri pra mim e abafa seu sorriso conversando,
quem quer que seja está do seu lado escutando,
e daqui vejo você imaginar o que estou pensando.
Até hoje, eu sei por onde você esteve vivendo
sei tudo sobre você mesmo não te conhecendo,
sei tudo que podemos ser mesmo nós não sendo.
Cada olhar seu na minha direção e tudo vai se esclarecendo,
sei que você quer o mesmo que eu estou querendo,
mesmo que seja apenas por esse breve momento.
Termina esta sua infrutífera conversa sorrindo,
levanta e vá no balcão pegar um café fingindo
que não sabe que atrás de você eu já estou indo.
Do que eu era (com ela / sem você) eu estou fugindo.
O que primeiro eu digo é uma graça, quero você rindo,
e nossa velha solidão mal-acompanhada vai, aos poucos, se esvairindo.
Não precisa ficar comigo até o fim, vai ficando.
Com presente, o nosso futuro vai se formando.
Sorri pra mim e abafa seu sorriso conversando,
quem quer que seja está do seu lado escutando,
e daqui vejo você imaginar o que estou pensando.
Até hoje, eu sei por onde você esteve vivendo
sei tudo sobre você mesmo não te conhecendo,
sei tudo que podemos ser mesmo nós não sendo.
Cada olhar seu na minha direção e tudo vai se esclarecendo,
sei que você quer o mesmo que eu estou querendo,
mesmo que seja apenas por esse breve momento.
Termina esta sua infrutífera conversa sorrindo,
levanta e vá no balcão pegar um café fingindo
que não sabe que atrás de você eu já estou indo.
Do que eu era (com ela / sem você) eu estou fugindo.
O que primeiro eu digo é uma graça, quero você rindo,
e nossa velha solidão mal-acompanhada vai, aos poucos, se esvairindo.
Tuesday, December 19, 2006
Olhinhos Azuis Brilhantes (Ficção) (Agora com Final Alternativo! eheehhhehe)
A minha já mencionada filha pediu uma boneca de presente de aniversário. Era uma daquelas bonecas grandonas, já imitando uma adolescente, com mais de um metro de altura, cabelos louros e olhos azuis brilhantes. As roupas da boneca eram, normalmente, roupas de quando minha adorada filhinha era ainda mais nova, por volta de um ano de idade, e em tudo ou quase tudo a boneca se assemelhava a um ser humano. Até umas frases idiotas a boneca falava.
Por vezes, a boneca me pregava uns sustos. Minha filha a deixava sentada no sofá da sala, eu passava e via de relance aqueles olhos azuis cintilando. Quando eu olhava, a boneca me encarava com o riso estático à meia-boca, um sorriso semi-aberto que continha dentinhos plásticos de um branco artificial. Singela. A singela beleza plastificada me encarando.
A boneca passou a semana inteira na minha casa, enquanto minha filha estava na casa da mãe. Coloquei a boneca dentro do quarto da única criança da casa e só quem entrou lá foi a empregada para arrumar. Na sexta, às vesperas dela chegar, fui ver se o quarto estava arrumado e, quando abri a porta, a boneca estava com a cabeça virada de lado, olhando como que assustada pela porta aberta de supetão. Cheguei a conclusão de que a empregada a deixara daquele jeito aleatoriamente, mas mesmo assim me incomordaram os olhinhos azuis feitos de acrílico.
Eu já vi muitos episódios de Além da Imaginação, do tipo em que uma coleção de barbies toma uma casa de assalto mantendo a governanta de refém ou um boneco de um herói toma vida, e sabia que não era isso que estava acontecendo. Era uma boneca, e ela estava sempre lá como uma boneca, sempre era tratada como humana e estava começando a me encher o saco. Não sei dizer por quê, mas eu sempre me sentia observado pela boneca. Sem contar os sustos de ver, de relance, uma figura "humana" olhando para mim no escuro. Minha filha deixava a boneca por todo canto. Na sala, na cozinha e até no banheiro. Uma vez, quando abri a porta, estava ela lá sentada no vaso olhando em direção a mim. O susto foi tão grande que quase que eu faço nas calças mesmo. Ainda bem que me toquei ser a boneca a tempo e me contive. Ela era tratada como um ser humano. Minha filha passava o dia com ela. Dava comida, colocava pra dormir, levava ao banheiro. Numa dessas que eu levei o susto relatado acima.
Enfim, numa manhã de sábado, fui acordar minha filhota no quarto dela. A colcha a cobria da cabeça aos pés, e eu entrei chamando pelo nome. E nada dela responder. Chamei mais umas duas vezes e silêncio. Quando tiro, já angustiado, a colcha, está lá a boneca sorrindo debochada pra mim, com os olhinhos azuis abertos, com cara de quem me pregou mais uma. Não contei conversa: peguei a boneca pelo pescoço, xingando, e chamei pela minha filha; ela não respondia. O que teria acontecido? Saí gritando pelo apartamento, desesperado, e nada. Perguntei, perguntei e nada. Por fim, apelei: "Se isso for uma brincadeira, a brincadeira acabou. Cadê você? Aparece!" - num tom entre o raivoso e o apelativo, gritando. Minha menina saiu de trás do sofá, meio assutada, e me comunicou que estva brincando de esconde-esconde com a boneca. E a boneca lá, me sacaneando com o sorriso artificial de escárnio, os olhos brilhando, feliz da vida. Tinha sido a gota d'água.
Peguei-a pelos cabelos louros de plástico e fui até a varanda, seguido pela minha filha. Olhei pra ela, levantei a boneca bem alto e disse: "Isso daqui é só uma boneca!!!" - e defenestrei a boneca 4 andares abaixo. Se chocou lá embaixo no chão e se quebrou em vários pedaços. Um deles era a cabeça. Minha filha pediu para ver, eu a levantei no colo e mostrei. E não é que a cabeça da boneca ainda tinha os malditos olhinhos azuis brilhantes e o sarcástico sorriso plástico cheio de ironia? E não é que ainda me encarava a filha da puta!
P.S. vai ficar desse jeito por enquanto, depois eu dou uma guaribada na escrita. valew.
P.S.2: Vai um final alternativo sugerido por dois grandes amigos numa conversa interessantíssima e engraçadíssima, e aqui vai meus sinceros apreços aos dois. Mas para melhor entender o final alternativo, sugiro a leitura do conto anterior, Mr. Bojangles.
Desisti de olhar os olhinhos lá embaixo, resolvi deixar tudo aquilo pra lá. Levei minha filha à cozinha, coloquei uma enorme taça de sorvete para cada um de nós dois e começamos a ver televisão. Ela pediu para que eu fosse no quarto dela pegar um brinquedo para ela. Fui, terminando minha taça de sorvete no caminho. Quando abro a porta, está sentada na cama, como costumava fazer, a desgraçada da boneca, inteiríssima, com os olhinhos azuis de mentira me olhando, o sorriso artificialmente irônico me sacaneando. Senti um misto de surpresa e susto, mas algo chamou rapidamente minha atenção: um objeto transparente brilhava no colo da boneca, cintilando como que se mexesse. Estava parado, era de vidro. Tinha água dentro. Era um vidro de maionese. E algo se movia dentro do vidro de maionese. Lá estava, para o meu grande espanto, o Mr. Bojangles nadando. Nadava em um ritmo certo, nadava como se ouvisse a música.
Por vezes, a boneca me pregava uns sustos. Minha filha a deixava sentada no sofá da sala, eu passava e via de relance aqueles olhos azuis cintilando. Quando eu olhava, a boneca me encarava com o riso estático à meia-boca, um sorriso semi-aberto que continha dentinhos plásticos de um branco artificial. Singela. A singela beleza plastificada me encarando.
A boneca passou a semana inteira na minha casa, enquanto minha filha estava na casa da mãe. Coloquei a boneca dentro do quarto da única criança da casa e só quem entrou lá foi a empregada para arrumar. Na sexta, às vesperas dela chegar, fui ver se o quarto estava arrumado e, quando abri a porta, a boneca estava com a cabeça virada de lado, olhando como que assustada pela porta aberta de supetão. Cheguei a conclusão de que a empregada a deixara daquele jeito aleatoriamente, mas mesmo assim me incomordaram os olhinhos azuis feitos de acrílico.
Eu já vi muitos episódios de Além da Imaginação, do tipo em que uma coleção de barbies toma uma casa de assalto mantendo a governanta de refém ou um boneco de um herói toma vida, e sabia que não era isso que estava acontecendo. Era uma boneca, e ela estava sempre lá como uma boneca, sempre era tratada como humana e estava começando a me encher o saco. Não sei dizer por quê, mas eu sempre me sentia observado pela boneca. Sem contar os sustos de ver, de relance, uma figura "humana" olhando para mim no escuro. Minha filha deixava a boneca por todo canto. Na sala, na cozinha e até no banheiro. Uma vez, quando abri a porta, estava ela lá sentada no vaso olhando em direção a mim. O susto foi tão grande que quase que eu faço nas calças mesmo. Ainda bem que me toquei ser a boneca a tempo e me contive. Ela era tratada como um ser humano. Minha filha passava o dia com ela. Dava comida, colocava pra dormir, levava ao banheiro. Numa dessas que eu levei o susto relatado acima.
Enfim, numa manhã de sábado, fui acordar minha filhota no quarto dela. A colcha a cobria da cabeça aos pés, e eu entrei chamando pelo nome. E nada dela responder. Chamei mais umas duas vezes e silêncio. Quando tiro, já angustiado, a colcha, está lá a boneca sorrindo debochada pra mim, com os olhinhos azuis abertos, com cara de quem me pregou mais uma. Não contei conversa: peguei a boneca pelo pescoço, xingando, e chamei pela minha filha; ela não respondia. O que teria acontecido? Saí gritando pelo apartamento, desesperado, e nada. Perguntei, perguntei e nada. Por fim, apelei: "Se isso for uma brincadeira, a brincadeira acabou. Cadê você? Aparece!" - num tom entre o raivoso e o apelativo, gritando. Minha menina saiu de trás do sofá, meio assutada, e me comunicou que estva brincando de esconde-esconde com a boneca. E a boneca lá, me sacaneando com o sorriso artificial de escárnio, os olhos brilhando, feliz da vida. Tinha sido a gota d'água.
Peguei-a pelos cabelos louros de plástico e fui até a varanda, seguido pela minha filha. Olhei pra ela, levantei a boneca bem alto e disse: "Isso daqui é só uma boneca!!!" - e defenestrei a boneca 4 andares abaixo. Se chocou lá embaixo no chão e se quebrou em vários pedaços. Um deles era a cabeça. Minha filha pediu para ver, eu a levantei no colo e mostrei. E não é que a cabeça da boneca ainda tinha os malditos olhinhos azuis brilhantes e o sarcástico sorriso plástico cheio de ironia? E não é que ainda me encarava a filha da puta!
P.S. vai ficar desse jeito por enquanto, depois eu dou uma guaribada na escrita. valew.
P.S.2: Vai um final alternativo sugerido por dois grandes amigos numa conversa interessantíssima e engraçadíssima, e aqui vai meus sinceros apreços aos dois. Mas para melhor entender o final alternativo, sugiro a leitura do conto anterior, Mr. Bojangles.
Desisti de olhar os olhinhos lá embaixo, resolvi deixar tudo aquilo pra lá. Levei minha filha à cozinha, coloquei uma enorme taça de sorvete para cada um de nós dois e começamos a ver televisão. Ela pediu para que eu fosse no quarto dela pegar um brinquedo para ela. Fui, terminando minha taça de sorvete no caminho. Quando abro a porta, está sentada na cama, como costumava fazer, a desgraçada da boneca, inteiríssima, com os olhinhos azuis de mentira me olhando, o sorriso artificialmente irônico me sacaneando. Senti um misto de surpresa e susto, mas algo chamou rapidamente minha atenção: um objeto transparente brilhava no colo da boneca, cintilando como que se mexesse. Estava parado, era de vidro. Tinha água dentro. Era um vidro de maionese. E algo se movia dentro do vidro de maionese. Lá estava, para o meu grande espanto, o Mr. Bojangles nadando. Nadava em um ritmo certo, nadava como se ouvisse a música.
Friday, December 08, 2006
Mr.Bojangles (Quase-Ficção)
Um belo sábado, levei minha filha a uma feira de animais de estimação. Quem entrasse e tivesse uma criança com menos de doze anos, ganhava direito a um peixe Beta. Entrei numa fila de umas 500 pessoas só para pegar o peixinho para ela, que insistia constantemente. Depois de ficar umas 3 horas em pé e ainda ter o meu pé pisado por um pai de 200 kilos revoltado com o tamanho do peixe (achou pequeno), consegui o Beta - nada de aquário, nada de comidinha de peixe, nada de manual de instruções: só um peixinho dourado (Dourado já é outra raça, portanto esse era um Beta dourado) dentro de um saco plástico transparente. Olhamos rapidamente a feira e fomos embora - tinha esperado tanto que quase já não tinha mais feira.
Eu sempre gostei de peixes. Mas esse era diferente. De alguma forma, ele parecia comigo - não fisicamente, claro. Ele só ficava ali, parado, dando umas nadadinhas, às vezes eu pegava ele olhando o mundo e a mim através do vidro transparente do pote de maionese - sim, eu o coloquei em um pote de maionese - já que na própria feira não tinha um só stand que vendesse aquários para os tais Beta (comerciantes sensacionais, já que a feira deve ter distribuído uns cinco mil betas e vendido zero aquários). Ao fim do final de semana, mInha filha voltou para a casa da mãe e o peixe ficou na minha. Coloquei ele do lado do monitor do meu computador.
Enquanto eu escrevia ou navegava na internet, lá estava o peixinho olhando para mim. Nadava tranquilamente, parava, me encarava com olhinhos perguntadores, comia um ou outro pedaço de comidinha que boiava no aquário imporvisado. Um dia, coloquei uma música do Bob Dylan, uma das minhas preferidas e o peixinho começou a nadar imediatamente. "Mr. Bojangles, Mr. Bojangles, daaaaaaance" - cantava o fanho Dylan no refrão e dançava o pexinho no ritmo. A música se chamava Mr. Bojangles, e fiquei tão impressionado que coloquei nele o nome da música. Mister Bojangles. Perfeito.
O gosto musical nos aproximou. Logo comecei a ter conversas regulares com o Mr. Bojangles, sobre meus contos, meus problemas com namorada(s), sobre dinheiro, tudo eu conversava com ele. Era uma espécie de Wilson (a bola de vôlei) para o náufrago Tom Hanks. Ele parecia se divertir. Ouvíamos Bob Dylan juntos, conversávamos (eu falava e ele ouvia), até cerveja tomamos juntos (na verdade, eu tomei e ele assistiu). Várias soluções eu encontrei conversando com o Mr. Bojangles.
Aconteceu de eu começar a escrever um conto (muito grande para postar aqui no blog). Bojangles sabia tudo sobre o conto, eu ia escrevendo e contando a quantas andava, novas idéias, tudo. Escrevi de uma vez só, virei a noite toda. E o Mr. Bojangles, lá. Já amanhecendo, anunciei vitorioso: Terminei! Quando olhei ao lado do monitor, meu grande amigo e companheiro de escrita não estava no aquário. A água parada, límpíssima. Até os cocôs do Mr. Bojangles haviam sumido. Eu não acreditei no que via. Aliás, no que não via.
Teria Bojangles se tornado um peixe-pássaro e saído voando? Estaria o aquário vazando e ele teria descido pelo vazamento? Procurei um furo, mas não havia água em volta. Pera aí, havia pingos dágua se estendendo em uma linha quase reta por toda a mesa, que terminavam em direção à parte de trás dela. Afastei a mesa e fui olhar, estranhado; lá jazia Mr. Bojangles, imóvel. Ainda peguei ele desesperadamente e o joguei de volta na água, mas ele desceu debilmente até o fundo e boiou de volta à superfície de cabeça pra baixo. Pobre Mr. B. Mesmo tendo se matado, mesmo tento pulado para fora do aquário por livre e espontânea vontade, se tornando um suicida, merecia um funeral justo. Coloquei-o em uma caixa de fósforos e mandei descarga abaixo, ao som da música: "Mr. Bojangles, daaaaaaaance", torcendo para a privada não entupir. Não entupiu.
Às vezes me pergunto os motivos do Mr. Bojangles ter cometido tal ato. Nos divertíamos, conversávamos bastante, acho que ele teria me dado alguma indicação de depressão. Cheguei a conclusão de que ele não gostara do meu conto.
P.S. Comprei o Mr. Bojangles 2. Ele ainda não se matou, me observa e ouve meus comentários atentamente enquanto escrevo isso.
Eu sempre gostei de peixes. Mas esse era diferente. De alguma forma, ele parecia comigo - não fisicamente, claro. Ele só ficava ali, parado, dando umas nadadinhas, às vezes eu pegava ele olhando o mundo e a mim através do vidro transparente do pote de maionese - sim, eu o coloquei em um pote de maionese - já que na própria feira não tinha um só stand que vendesse aquários para os tais Beta (comerciantes sensacionais, já que a feira deve ter distribuído uns cinco mil betas e vendido zero aquários). Ao fim do final de semana, mInha filha voltou para a casa da mãe e o peixe ficou na minha. Coloquei ele do lado do monitor do meu computador.
Enquanto eu escrevia ou navegava na internet, lá estava o peixinho olhando para mim. Nadava tranquilamente, parava, me encarava com olhinhos perguntadores, comia um ou outro pedaço de comidinha que boiava no aquário imporvisado. Um dia, coloquei uma música do Bob Dylan, uma das minhas preferidas e o peixinho começou a nadar imediatamente. "Mr. Bojangles, Mr. Bojangles, daaaaaaance" - cantava o fanho Dylan no refrão e dançava o pexinho no ritmo. A música se chamava Mr. Bojangles, e fiquei tão impressionado que coloquei nele o nome da música. Mister Bojangles. Perfeito.
O gosto musical nos aproximou. Logo comecei a ter conversas regulares com o Mr. Bojangles, sobre meus contos, meus problemas com namorada(s), sobre dinheiro, tudo eu conversava com ele. Era uma espécie de Wilson (a bola de vôlei) para o náufrago Tom Hanks. Ele parecia se divertir. Ouvíamos Bob Dylan juntos, conversávamos (eu falava e ele ouvia), até cerveja tomamos juntos (na verdade, eu tomei e ele assistiu). Várias soluções eu encontrei conversando com o Mr. Bojangles.
Aconteceu de eu começar a escrever um conto (muito grande para postar aqui no blog). Bojangles sabia tudo sobre o conto, eu ia escrevendo e contando a quantas andava, novas idéias, tudo. Escrevi de uma vez só, virei a noite toda. E o Mr. Bojangles, lá. Já amanhecendo, anunciei vitorioso: Terminei! Quando olhei ao lado do monitor, meu grande amigo e companheiro de escrita não estava no aquário. A água parada, límpíssima. Até os cocôs do Mr. Bojangles haviam sumido. Eu não acreditei no que via. Aliás, no que não via.
Teria Bojangles se tornado um peixe-pássaro e saído voando? Estaria o aquário vazando e ele teria descido pelo vazamento? Procurei um furo, mas não havia água em volta. Pera aí, havia pingos dágua se estendendo em uma linha quase reta por toda a mesa, que terminavam em direção à parte de trás dela. Afastei a mesa e fui olhar, estranhado; lá jazia Mr. Bojangles, imóvel. Ainda peguei ele desesperadamente e o joguei de volta na água, mas ele desceu debilmente até o fundo e boiou de volta à superfície de cabeça pra baixo. Pobre Mr. B. Mesmo tendo se matado, mesmo tento pulado para fora do aquário por livre e espontânea vontade, se tornando um suicida, merecia um funeral justo. Coloquei-o em uma caixa de fósforos e mandei descarga abaixo, ao som da música: "Mr. Bojangles, daaaaaaaance", torcendo para a privada não entupir. Não entupiu.
Às vezes me pergunto os motivos do Mr. Bojangles ter cometido tal ato. Nos divertíamos, conversávamos bastante, acho que ele teria me dado alguma indicação de depressão. Cheguei a conclusão de que ele não gostara do meu conto.
P.S. Comprei o Mr. Bojangles 2. Ele ainda não se matou, me observa e ouve meus comentários atentamente enquanto escrevo isso.
Tuesday, December 05, 2006
Ler ou Não Ver? Eis a Questão
Vêem, os olhos, (o) que querem. Ou (o) que podem.
Orbitam a órbita lógica do globo ocular, no osso orbital.
Óbito tal, qual? O quanto se faz normal com anoréxica + Xenical?
Fluoxetina não corta (a) Caloria = Kcal, anulada na real by ideal de beleza normal.
Normal?
Nos olhos de quem vê está a beleza de quem bela não se vê.
"Ler a bula é o melhor remédio" (Lúcia Rosas)
Orbitam a órbita lógica do globo ocular, no osso orbital.
Óbito tal, qual? O quanto se faz normal com anoréxica + Xenical?
Fluoxetina não corta (a) Caloria = Kcal, anulada na real by ideal de beleza normal.
Normal?
Nos olhos de quem vê está a beleza de quem bela não se vê.
"Ler a bula é o melhor remédio" (Lúcia Rosas)
Monday, December 04, 2006
E na Parada de Ônibus.. (Ficção)
Quem é aquele menino olhando para mim do outro lado da rua? É bonito, hein?
Ai meu Deus, ele ainda tá olhando. Deve ter me achando gorda, já que eu tô enorme mesmo. A cara dele é de riso, ele tá sorrindo? Não, eu conheço aquele olhar, é de ironia. Ele tá achando algo engraçado em mim. Dessa distância ele só consegue ver uma bola mesmo. Ele tá atravessando a rua, a cara de cínico tá aumentando. Cadê esse ônibus que não chega? Será que ele ainda tá olhando pra mim? Está. Quem é ele afinal, acho que conheço de algum lugar. Bom, se ele me conhecer, que venha falar comigo. Mas ele tá me encarando mesmo, agora. Será que é o meu cabelo? Não, acabei de pintar de vermelho, tá lindo. Ou ficou um pedaço de alface no meu aparelho? Passei a língua no aparelho, não pareceu sujo. O que ele tá olhando tanto com essa cara irônica? Ah, vou parar de olhar para ele, tá tirando onda com a minha cara, eu não tô com paciência pra isso não. Nem conheço ele. Será que é a minha roupa? Droga, ele continua olhando, que cara de pau! Vai passar por mim agora, vou parar de olhar para ele. Ônibus desgraçado que não chega. Ele passa por mim e diz:
_Você é linda, viu? Pela cara que você me fez, acho que não quer me conhecer não. Mas, de qualquer maneira, tá aqui o meu telefone - e me entregou um papelzinho.
Peguei e disse que estava tudo bem. Sorri pra mim mesma.
Ai meu Deus, ele ainda tá olhando. Deve ter me achando gorda, já que eu tô enorme mesmo. A cara dele é de riso, ele tá sorrindo? Não, eu conheço aquele olhar, é de ironia. Ele tá achando algo engraçado em mim. Dessa distância ele só consegue ver uma bola mesmo. Ele tá atravessando a rua, a cara de cínico tá aumentando. Cadê esse ônibus que não chega? Será que ele ainda tá olhando pra mim? Está. Quem é ele afinal, acho que conheço de algum lugar. Bom, se ele me conhecer, que venha falar comigo. Mas ele tá me encarando mesmo, agora. Será que é o meu cabelo? Não, acabei de pintar de vermelho, tá lindo. Ou ficou um pedaço de alface no meu aparelho? Passei a língua no aparelho, não pareceu sujo. O que ele tá olhando tanto com essa cara irônica? Ah, vou parar de olhar para ele, tá tirando onda com a minha cara, eu não tô com paciência pra isso não. Nem conheço ele. Será que é a minha roupa? Droga, ele continua olhando, que cara de pau! Vai passar por mim agora, vou parar de olhar para ele. Ônibus desgraçado que não chega. Ele passa por mim e diz:
_Você é linda, viu? Pela cara que você me fez, acho que não quer me conhecer não. Mas, de qualquer maneira, tá aqui o meu telefone - e me entregou um papelzinho.
Peguei e disse que estava tudo bem. Sorri pra mim mesma.
Saturday, December 02, 2006
O Presente (ou Desculpa Para Não Dar Presentes, você escolhe o título)
O presente é um tremendo de um presente - o passado já se foi, futuro pode não ser um bom presente. Quando ganhamos algo de quem nós gostamos, é como se isso sempre nos pertencesse. Pode ser uma caixa de chocolates - que acaba no mesmo dia, a não ser que dê uma dor de barriga - uma flor, um carro, qualquer coisa (claro que um carrão ou uma jóia é muito mais 'presença'). Mas eu acredito que o melhor presente são sentimentos. Raciocine comigo.
Um sentimento não tem preço. Claro que isso não é desculpa, pois algo que não tem preço pode não valer nada, mas não é esse o caso. Estou falando de um BOM sentimento; Um sentimento nunca vem sozinho - quando estamos apaixonados, por exemplo (exemplo!!!!!!), vem muitos outros sentimentos: alegria, prazer, tesão, compreensão, e quem sabe até felicidade e esperança. Ou a amizade, que trás inúmeros sentimentos, como companheirismo, camaradagem, ajuda, alegria, risos e sorrisos, etc, etc... Por essa lógica, um sentimento como presente são vários presentes, já que são vários sentimentos;
Um sentimento como presente pode ser infinito. Claro que sentimentos acabam, mas fica o aprendizado - esse sim é eterno.
Um sentimento (estou ficando repetitivo) muda tudo, muda mais do que determinadas coisas materiais. Por exemplo: camisas feias que não cabem, ou cd's de música brega, ou qualquer outra coisa que se queira trocar, porque quem comprou seguiu o próprio gosto e ainda disse: "Ah, acho isso a sua cara". Ao menos, nesse caso, veio o sentimento da lembrança. E é da lembrança que vem (tradicionalmente) o presente, fazendo o ciclo lembrança = presente, e sendo a lembrança um sentimento, logo: sentimento = presente. Entendeu?
Voltando ao início, e seguindo a lógica de que sentimentos acabam, o que sentimos está no nosso presente, porque se não sentimos, já é passado. Logo, se você está no meu presente é porque eu te sinto e se eu te sinto, você sempre estará no meu presente (mesmo que não nos vejamos sempre), e esse é o melhor presente que eu posso te dar (liso?!). E, sendo assim, o presente é o meu melhor presente.
Um sentimento não tem preço. Claro que isso não é desculpa, pois algo que não tem preço pode não valer nada, mas não é esse o caso. Estou falando de um BOM sentimento; Um sentimento nunca vem sozinho - quando estamos apaixonados, por exemplo (exemplo!!!!!!), vem muitos outros sentimentos: alegria, prazer, tesão, compreensão, e quem sabe até felicidade e esperança. Ou a amizade, que trás inúmeros sentimentos, como companheirismo, camaradagem, ajuda, alegria, risos e sorrisos, etc, etc... Por essa lógica, um sentimento como presente são vários presentes, já que são vários sentimentos;
Um sentimento como presente pode ser infinito. Claro que sentimentos acabam, mas fica o aprendizado - esse sim é eterno.
Um sentimento (estou ficando repetitivo) muda tudo, muda mais do que determinadas coisas materiais. Por exemplo: camisas feias que não cabem, ou cd's de música brega, ou qualquer outra coisa que se queira trocar, porque quem comprou seguiu o próprio gosto e ainda disse: "Ah, acho isso a sua cara". Ao menos, nesse caso, veio o sentimento da lembrança. E é da lembrança que vem (tradicionalmente) o presente, fazendo o ciclo lembrança = presente, e sendo a lembrança um sentimento, logo: sentimento = presente. Entendeu?
Voltando ao início, e seguindo a lógica de que sentimentos acabam, o que sentimos está no nosso presente, porque se não sentimos, já é passado. Logo, se você está no meu presente é porque eu te sinto e se eu te sinto, você sempre estará no meu presente (mesmo que não nos vejamos sempre), e esse é o melhor presente que eu posso te dar (liso?!). E, sendo assim, o presente é o meu melhor presente.
Era um pouco mais de informação do que eu precisava... (Ficção)
(Antes de ler isso, sugiro a leitura de: http://ficcaonaocientifica.blogspot.com/2006/11/fico-no-cientfica.html)
Abro meus olhos com o sol no meu rosto. Onde é que estou? Que horas são? De quem são esses cabelos ruivos e essas costas femininas do meu lado? As respostas surgem mais simples que as perguntas: Estou em casa, são 5:49 da manhã e os cabelos ruivos pertencem a Ela. Pensando bem, essa última resposta não é tão simples. "Quem é ela", me toquei de que não sabia. Sei seu nome, claro, estamos juntos fazem alguns meses, e eu não faço idéia de quem ela é. Inteligente, sagaz? Expressiva, espontânea? Talvez. Bonita? Sem dúvida. Eu sei que, outrora, tirei essas e outras conclusões a respeito dela, mas nada disso me parece plausível agora. Meu julgamento na hora em questão não é mais tão confiável.
Não que ela e eu não conversássemos; ao contrário, conversávamos até demais. O timeco de futebol para o qual ela torce eu me lembro; que odeia calcinha fio-dental ela me disse. Adora a saga "Jogos Mortais", sabe como cada personagem morre e a sequência certa. Adora McDonalds, vomita sushi. Ganha mais de mesada do que eu de salário, dorme tarde e até tarde (igual a mim), tem medo de fantasmas (diferente de mim). Já beijou mais do que eu, já fiz mais sexo do que ela. Meia dúzia de namorados anteriores a mim - e nem namorado sei se sou. Nos apaixonamos por um número igual de pessoas. Não sei se eu conto como paixão na lista dela - ela tem uma lista, sim - e nem se a própria conta como paixão para mim. Só sei que agora está deitada do meu lado, completamente nua e desconhecida - o que é uma contradição porquê, tecnicamente, se está nua do meu lado, eu deveria saber algo sobre ela.
Na noite passada, resolvemos ter uma - na verdade, a primeira - conversa séria de verdade. O que estávamos fazendo durante aquele tempo juntos, o que realmente tínhamos feito nas nossas vidas. No nosso passado, quem foram os personagens principais, quem foram os coadjuvantes. O que esperavámos do resto dos nossos dias. O que tínhamos aprendido, quem tínhamos guardado, quem tínhamos desprezado. O que existia em comum entre nós, o que não existia. Experiências sexuais, fantasias secretas. Quem nos tornaríamos, se uma pessoa juntos ou duas pessoas separados. Pratos limpos, roupas lavadas, cartas na mesa, jogamos tudo. Jogamos tudo para o alto.
E assim foi. Acabamos por nos conhecer demais, talvez mais do que era necessário - ou talvez mais do que realmente quiséssemos. Não valeu a conversa. "Quebrou o encanto", diria um velho sábio que conheci. Agora eu estou aqui deitado, cansado - por ter acordado na hora em que normalmente durmo - querendo ir embora da minha própria casa. Não quero lidar com o fim. Mas não iria adiantar de nada, eu tenho que dizer ou responder o "adeus". Sei que ela se sente do mesmo jeito, notei quando fizemos amor (?), como se fosse a última vez. Tenho certeza que foi.
Me levanto trôpego e fecho as cortinas que, abertas, me deixavam vulneráveis ao sol. Ela não parece se importar, dorme profundamente. Deito de volta para dormir, a fim de adiantar o relógio em direção ao inevitável "adeus" - ao invés do costumaz "bom dia". Quem será o primeiro a dizer? Quem terá que responder? Ela, eu?
Abro meus olhos com o sol no meu rosto. Onde é que estou? Que horas são? De quem são esses cabelos ruivos e essas costas femininas do meu lado? As respostas surgem mais simples que as perguntas: Estou em casa, são 5:49 da manhã e os cabelos ruivos pertencem a Ela. Pensando bem, essa última resposta não é tão simples. "Quem é ela", me toquei de que não sabia. Sei seu nome, claro, estamos juntos fazem alguns meses, e eu não faço idéia de quem ela é. Inteligente, sagaz? Expressiva, espontânea? Talvez. Bonita? Sem dúvida. Eu sei que, outrora, tirei essas e outras conclusões a respeito dela, mas nada disso me parece plausível agora. Meu julgamento na hora em questão não é mais tão confiável.
Não que ela e eu não conversássemos; ao contrário, conversávamos até demais. O timeco de futebol para o qual ela torce eu me lembro; que odeia calcinha fio-dental ela me disse. Adora a saga "Jogos Mortais", sabe como cada personagem morre e a sequência certa. Adora McDonalds, vomita sushi. Ganha mais de mesada do que eu de salário, dorme tarde e até tarde (igual a mim), tem medo de fantasmas (diferente de mim). Já beijou mais do que eu, já fiz mais sexo do que ela. Meia dúzia de namorados anteriores a mim - e nem namorado sei se sou. Nos apaixonamos por um número igual de pessoas. Não sei se eu conto como paixão na lista dela - ela tem uma lista, sim - e nem se a própria conta como paixão para mim. Só sei que agora está deitada do meu lado, completamente nua e desconhecida - o que é uma contradição porquê, tecnicamente, se está nua do meu lado, eu deveria saber algo sobre ela.
Na noite passada, resolvemos ter uma - na verdade, a primeira - conversa séria de verdade. O que estávamos fazendo durante aquele tempo juntos, o que realmente tínhamos feito nas nossas vidas. No nosso passado, quem foram os personagens principais, quem foram os coadjuvantes. O que esperavámos do resto dos nossos dias. O que tínhamos aprendido, quem tínhamos guardado, quem tínhamos desprezado. O que existia em comum entre nós, o que não existia. Experiências sexuais, fantasias secretas. Quem nos tornaríamos, se uma pessoa juntos ou duas pessoas separados. Pratos limpos, roupas lavadas, cartas na mesa, jogamos tudo. Jogamos tudo para o alto.
E assim foi. Acabamos por nos conhecer demais, talvez mais do que era necessário - ou talvez mais do que realmente quiséssemos. Não valeu a conversa. "Quebrou o encanto", diria um velho sábio que conheci. Agora eu estou aqui deitado, cansado - por ter acordado na hora em que normalmente durmo - querendo ir embora da minha própria casa. Não quero lidar com o fim. Mas não iria adiantar de nada, eu tenho que dizer ou responder o "adeus". Sei que ela se sente do mesmo jeito, notei quando fizemos amor (?), como se fosse a última vez. Tenho certeza que foi.
Me levanto trôpego e fecho as cortinas que, abertas, me deixavam vulneráveis ao sol. Ela não parece se importar, dorme profundamente. Deito de volta para dormir, a fim de adiantar o relógio em direção ao inevitável "adeus" - ao invés do costumaz "bom dia". Quem será o primeiro a dizer? Quem terá que responder? Ela, eu?
Friday, December 01, 2006
Minhas Letrinhas

Eu ia postar uma ficçãozinha aqui, que eu fiz anteontem à noite, mas uma conversa me fez refletir mais sobre a minha escrita (que alguns de vocês tecnicamente ainda não viram). Uma garota que eu conheço, ao comentar sobre o meu mais novo blog (esse) me disse a seguinte frase: "você escreve bem, deve mostrar o seu trabalho" (ou algo parecido, mas a palavra trabalho estava lá, imaculada). Odeio que se refiram a qualquer coisa que eu faça de graça usando essa palavra amaldiçoada. Amaldiçoada pelo dinheiro.
Você deve estar pensando que eu vou começar a fazer um discurso contra o capitalismo, ou contra "vender minha arte" - arte eu também não gosto de usar como definição, já que não tenho o talento necessário para ser um artista. Não é nada disso. É pura e simplesmente pelo fato de não ser nenhum trabalho. Não ganho dinheiro, o que é mais importante, faço por prazer, faço porque gosto. Citando o texto anterior, faço porque sou perturbado.
Então, diante da minha velada indignação pela forma como ela chamou genericamente o que eu escrevo, me perguntou: "E como é para chamar?" Daí ela começou: "seus textos? suas crônicas? suas ficções não-científicas? seus contos?"
Eu não sabia. Cada coisa que escrevo pode ser uma dessas coisas, pode ser todas ou pode ser nenhuma. Nada era completo o suficiente. Tudo que eu fazia era colocar letrinhas na tela do computador. Letrinhas. Minhas.
E assim ficou. Minhas letrinhas. Eu não escrevo crônicas, eu não escrevo ficções (científicas ou não), não escrevo trabalhos nem faço arte. Nada contra ambos. Escrevo minhas letrinhas
"É preciso ser um verdadeiro artista para viver da própria arte" (Anônimo)
P.S. A ficçãozinha fica pra amanhã.
Você deve estar pensando que eu vou começar a fazer um discurso contra o capitalismo, ou contra "vender minha arte" - arte eu também não gosto de usar como definição, já que não tenho o talento necessário para ser um artista. Não é nada disso. É pura e simplesmente pelo fato de não ser nenhum trabalho. Não ganho dinheiro, o que é mais importante, faço por prazer, faço porque gosto. Citando o texto anterior, faço porque sou perturbado.
Então, diante da minha velada indignação pela forma como ela chamou genericamente o que eu escrevo, me perguntou: "E como é para chamar?" Daí ela começou: "seus textos? suas crônicas? suas ficções não-científicas? seus contos?"
Eu não sabia. Cada coisa que escrevo pode ser uma dessas coisas, pode ser todas ou pode ser nenhuma. Nada era completo o suficiente. Tudo que eu fazia era colocar letrinhas na tela do computador. Letrinhas. Minhas.
E assim ficou. Minhas letrinhas. Eu não escrevo crônicas, eu não escrevo ficções (científicas ou não), não escrevo trabalhos nem faço arte. Nada contra ambos. Escrevo minhas letrinhas
"É preciso ser um verdadeiro artista para viver da própria arte" (Anônimo)
P.S. A ficçãozinha fica pra amanhã.
Ficção Não-Científica
Eu não sei escrever. Isso é um fato. Às vezes, num relance, tenho boas (?) idéias, mas não sei passá-las para o papel (tela do computador). Pedro Juan Gutierréz disse que de nada vale uma arte que não seja perturbada. Escrevo por isso. Sou perturbado.
Perturbado pelas críticas, pelo que já escrevi no passado. Coisas que eu acho invariavelmente ruins. Acho que tenho que fazer o curso de Letras na universidade, ou ler mais coisas que eu considero chatas e que consideram geniais. Sinceramente não me importa muito. Quando escrevo alguma coisa, aquilo fica daquele jeito. Dou uma revisada gramatical, pego o "Pai dos Burros" para checar uma ou outra palavra, mas em geral, fica como está.
Li uma vez um livro sobre "como escrever best sellers" e a primeira dica era: "Quando terminar de escrever, reescreva tudo denovo". Foi nessa hora que eu percebi que não sabia escrever - pelo menos não sabia escrever best-sellers. Uma das críticas que eu já recebi pelo menos 10 vezes de pessoas que me conhecem muito bem foi: "Você escreve como fala". Fiquei muito triste e muito feliz ao mesmo tempo. Muito triste porque eu não sei fugir da minha linguagem usual, muito feliz por que tenho um estilo próprio, reconhecível.
Admito que isso me assusta: pensarem que a ficção que eu escrevo me descreve. Quando descobrirem que não me descreve, me chamarão de mentiroso. Seria como "Papai Noel não existe": o °F não existe! Deve ser por isso que escrevem "Isso é uma obra de ficção, qualquer personagem ou fato existente na vida real é mera coincidência". Devem ter medo de serem confundidos com o vilão da estória. Ou pode ter alguma lei que, interpretada de maneira (in)conveniente, permita o escritor ser processado por algo que ele escreveu. Não posso falar dos (pelos) outros escritores: eu não maqueio a realidade na minha ficção. Apenas escrevo. Ficção. Não-científica.
"Um escritor é alguém congenitamente incapaz de dizer a verdade. Por isso, o que ele escreve se chama ficção" (William Faulkner)
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