Monday, May 28, 2007

Incondicional (Ficção)

_Levanta ou você vai se atrasar pro trabalho - gritou ele de dentro do banheiro - você ainda tem que passar na clínica.
Ísis estava deitada com os olhos abertos, em posição fetal, pensando no que aqueles resultados poderiam revelar. A menstruação atrasada provavelmente indicava um bebê. Não sabia a reação de Pedro caso fosse, então havia feito vários exames para ocultar o de gravidez, que não contara ao marido. Aliás, "marido" era um termo deveras vago, pois não eram casados; moravam juntos havia alguns anos. O relacionamento era visto de fora como perfeito, e também de dentro, por ela, pelo menos. Mantinham a mesma paixão de quando haviam se conhecido, as demonstrações de amor, o carinho, o sexo, tudo desde sempre, perfeito. E ela não queria estragar isso. Trazia dentro de si uma culpa pela menstruação atrasada, mesmo ambos usando preservativos, algo devia ter acontecido. E a culpa era dela.
_Fale alguma coisa - disse Pedro entre um gole de café e outro - está com TPM, é? A brincadeira irônicamente inocente a fez se encolher ainda mais no outro lado da pequena mesa de mármore. Dissimulou um sorriso e um quase inaudível "Claro que não". Se levantou da cadeira, entornou o capuccino em um gole e se mostrou apressada:
_Estou indo. Deixa tudo na pia que na volta eu lavo.
Entrou no carro, acendeu um cigarro. Se perguntou se o fumo faria mal à virtual criança que involuntariamente se formava no útero dela naquele exato momento. Ligou a ignição e mentalizou o caminho da clínica.
Chegou, parou o carro, olhou o relógio: ainda dava tempo. Se amaldiçoou por ser tão pontual - caso tivesse atrasada, poderia adiar a derradeira verdade. Respirou fundo. De resto foi tudo muito rápido. Foi antendida, entregou a requisição, a enfermeira encontrou o exame e passou a ela, que assinou uma guia e voltou ao carro. Acendeu outro cigarro e desenvelopou o papel bem dobrado. O resultado a deixou perplexa.

Faltou o trabalho, ligou dizendo-se doente. Voltou para o pequeno apartamento que dividia com o quase marido, arrumou tudo, sala, cozinha, quarto e, inclusive, suas malas.Rearrumou a vida na sua cabeça, relembrou seus passos até ali, e a resposta era clara. Passou o dia esperando Pedro voltar do trabalho. Na hora de sempre, ele entrou pela porta. Encontrou sua amada inexpressiva no sofá da sala, o fitando com olhos nunca vistos por ele nela antes. Olhos de medo. Sentou-se do lado dela, mudo.
Ela lhe explicou os exames. Contou da menstruação atrasada e do resultado negativo para gravidez. Ele ouvia calado. Tentou interrompê-la uma ou duas vezes, afirmando que nada daquilo acabaria com o que ele sentia por ela, mas Ísis continuava implacável nas explicações:
_Deixa eu terminar, Pedro. Lembra quando brigamos por causa daquela sua ex-namorada? Fiquei com tanto ódio de você ter transado com ela que saí com as meninas, para uma boate, querendo me vingar. Muitas vodkas depois eu estava pronta e me vinguei. Conheci um cara lá, fomos para a casa dele e transamos.
_Eu não me importo, eu só me importo com a gente. Isso é passado...
_Deixa eu terminar, Pedro. - e ele se calou. E ela terminou. - Nunca te contei por saber que você era o homem da minha vida, e eu não queria estragar isso. Mas já tinha estragado e não sabia. Eu transei com ele, e transei sem nenhuma proteção. Acabei esquecendo disso com o tempo, por não dar a mínima importância, mas agora é tarde. Eu tenho AIDS, Pedro. E não posso ter pegado de você, fez esse exame a seis meses.
Agora era ela que não reconhecia os olhos de Pedro. Este encarou o rosto dela, impassível. Olhou os papéis, eram decisivos: HIV POSITIVO, escrito assim, em letras garrafais, em negrito. Foi então que ele suspirou, amassou o papel, levantou-se, jogou-o no lixo, voltou ao sofá, pegou-a pela mão e disse:
_Ísis, eu já falei: o que me importa é a gente. Nós dois. Juntos. E mais nada.
Pedro beijou-a na boca, um beijo longo e molhado, familiar e cúmplice. Pegou-a nos braços e deitou ela cuidadosamente na cama. Tirou-lhe as roupas e fez amor com ela, deixando a camisinha, pela primeira vez em todos aqueles anos, na mesinha da cabeceira.

20 comments:

Anonymous said...

nossa tu anda viajando mesmo heeeim!?
=P


invejo sua imaginação....


ŦąՅเσ™ said...

brigado, Nê, mas como dizem "são seus olhos"..
tem nada demais não..

Anonymous said...

Não faria isso não cara...ela me corneou e eu vou pegar AIDS de graça aaaaaaaaaaaaaaaaah va encher linguiça!!! vc devia fazer esses textos e escolher 3 finais , tipo "VC DECIDE" e ver o q galera escolheu!! abraços cara

ŦąՅเσ™ said...

ahahahahahhahaha essa foi boa.. eu tb nao faria nao, cara.. mas a ideia era essa: amor incondicional
e é uma estória.. e eu não sou programa de TV ;P
"cada historia tem o final que merece"

Aninha said...

Quase que literalmente com o queixo caído... De forma bem real fiquei boquiaberta...
PERFEITO!
Caraca, sei lá...

Não sei nem explicar... Perfeito, pra mim, mas perfeito.

Anonymous said...

poxa, que cara demente...

ŦąՅเσ™ said...

Ô
ehehhehehe

Samuel Gois said...

eita cara compreensivo!

Sininho. said...

tem q mudar o título, isso é uma master-ficção.

E PeDRO era doido.

Anonymous said...

Muito bem escrito, ate certo ponto de forte e expressivo conteúdo,mas bastante ilusório.
Realmente nao sei em q planeta isso aconteceria,mas enfim, é ficçao, se nao fosse ele teria dado um pé na bunda dela logo qd ela falou q tinha traído ele.
E renunciar a própria saúde por amor? faltou-lhe amor próprio.

Aline said...

achei completamente 'fofo'..
e sei que isso não é expressão que se use pra uma crônica, mas essa especialmente está suave, apesar do tema pesado..

o amor suaviza tudo! e a realidade que se foda!

amei amei! estrelinhas pra vc! hehe

beijo, fabiooo! saudades!

ŦąՅเσ™ said...

Eita, pelo visto eu tenho mais um Best Seller!!! :D

Sininho: eu não seu o que é master-ficção (mas faço idéia).. eu não faço jornalismo como você, escrevo de inxirido :( brigado pelo coment. bjo


Anônimo: É deve ser isso aih
mesmo ....


Brigadão Alinee!! muitas saudades tb.. e muitos beijos! volta logo :D

Thiala said...

Todos só falam que o cara é idiota, mas será que ninguém pensou que foi ele que a traiu primeiro??? E a mulher se fudeu por causa dele, numa vingancinha sem-noção! AAhh..ele mereceu! Por que vocês acham que ela não fez nada pra impedi-lo?? hum!

ŦąՅเσ™ said...

é isso aê, thiala! eu fui casado com essa mulher aí, viu?!?
:P

Kallenya said...

POxa... que situação hein?!

Foi triste, a mulher se deu mal pq achou estar vingando um cara que a traiu...
Não foi ele que não mereceu e sim ela não merecia, porém foi incosequente e teve que colher o que plantou numa "saida" irresponsável...
O texto fictício me faz pensar duas coisas: nossas escolhas tem um preço, e até quando devemos negar o nosso amor próprio por um alguém?!

audaci jr. said...

PROPOSTA: Não é um "Você decide!", mas um "Mr. Bogangles" (ou alguma porra parecida)...
Meses depois, o papel estava positivo. O de gravidez...
Hehehehehe... Fodam-se as criançinhas!

°F said...

não reparem...

se eu colocasse algo assim, seria um voce decide aueheuheuhe

e quem decide sou eu, sou eeeeuuuuu!!! uuaaaahahahah (risada maléfica)

cicilah said...

rapaz.. ficaria melhor se subentendessem q ele tinha aids.. passou pra ela e nao quis contar.. deixou a pobre pensando q foi o outro..
=)
beijo...

°F said...

jah q tanta gente quis mudar o final, o meu próximo conto vai ter três finais, e o pessoal vai pode escolher um! auehaeuheuhee aguardem!!!!!

luiz neto said...

mto legal e continue assim!