Thursday, November 08, 2007

De Mal a Mar (Ficção)

O carro hibernava na garagem. O motor quente denunciava o recente retorno. Seria de estranhar que o rapaz entrasse novamente no automóvel, mas era isso que fazia agora. Precisava levá-la a uma pizzaria. Se ela queria, era o suficiente.
Já sabia há muito tempo que estava apaixonado. Teve o prazer da apresentação através de amigos em comum e fez por onde se aproximar dela. Pediu telefone, chamou-a para sair. Estava fácil conquistá-la e o porquê era óbvio. Era pra ser assim.
Já no primeiro encontro o amor do rapaz desabou. Saíram juntos numa noite clara de sábado para encontrar os tais "amigos em comum". Na conversa, secreta aos outros, ela foi direta e afiada, como um bisturi: "Quero ser só sua amiga".
O resto da noite do rapaz foi uma sequência de sorrisos amarelos e risadas desconexas - hora insuficientes, hora exageradas. Tudo a fim de ocultar sua incredulidade na sentença da "garota perfeita". Ela, por sua vez, agia sem o menor desconforto: ria em compasso com os demais, compartilhava as piadas e participava das conversas. Em uma ou duas ocasiões, ainda o abraçara, cúmplice. Estava confuso. Não podia ser; ela só queria conhecê-lo melhor. Devia ser, a amizade, apenas uma desculpa.
Mas cada nova tentativa romântica foi frustrada. Ele mandou mensagens pelo celular e esperou respostas que nunca chegaram. Convites para sair ela aceitava; ao primeiro sinal de declaração, a mesma conversa sobre namoro estragar a amizade se contruía numa barreira entre os dois. Seu prêmio de consolação foi aceitar a amizade. Bastava-lhe estar junto dela.
Assim o rapaz se iludiu. Decerto que a ilusão durou pouco: logo retornaram as mesmas juras de amor eterno. Junto, veio a contrapartida: os discursos sobre a amizade ser inimiga do namoro.
Seus sentimentos, agora maiores e mais intensos, o impediam de fazer qualquer coisa. Nas aulas da faculdade, não se concentrava; em casa, andava pela madrugada do apartamento no escuro total em busca de uma resposta para a rejeição impensável. Não concebia sua devoção e seu amor sincero serem jogados fora como lixo.
Ele não merecia isso. Não ele. Ela precisava entender. Algo precisava ser feito. O amor não era inútil. Não era lixo para ser dispensado. O amor dele era importante.

Era uma dessas madrugadas emotivamente pensativas.
Ela, sem sono e com muita confiança na disponibilidade do amigo, ligou.
O rapaz atendeu, esperançoso. Algo poderia ser diferente agora.

Mas não era. Uma conversa para passar o tempo, para dar sono, a garota deixou claro. Divagou sobre a vida, sobre acontecimentos do dia a dia. Ele ouvia, atentamente; concordava. Afinal, seu amor não era inútil.
Ela mencionou vontade de comer. De comer pizza.

Deu-se o estalo: levaria uma pizza, de presente. Melhor ainda: a levaria para comer uma pizza. Sugeriu e ela adorou.
Dessa vez tudo seria diferente; ele diria de outra forma, a convenceria. Mostaria o que era óbvio: que ambos foram feitos pra ser mais do que amigos. Era tão simples, tão trivial, tão lógico. Ela aceitá-lo, dizer uma palavra, um gesto de aceitação e pronto. Tudo estaria certo. Só isso.
O carro hibernava na garagem. O motor quente denunciava o recente retorno. Seria de estranhar que o rapaz entrasse novamente no automóvel, mas era isso que fazia agora. Precisava levá-la a uma pizzaria.
Chegou no prédio-destino; a garota o esperava já embaixo. Linda, coloria a noite, que até então era pintada em tons sépia pelas velhas lâmpadas dos postes.
Ele mal podia esperar. Dentro do carro, levando-a em direção à pizzaria, disse-lhe (mais uma vez) que a amava. Ela, saturada, o enfrentou: era esse o único motivo de irem à pizzaria? Se fosse, podiam dar meia volta.
Claro que era . E por que seria, então?
Agora ela sabia que a amizade era impossível.
Agora ele sabia que o amor era impossível.

O que fazer? O carro seguia por uma extensa ponte, que ligava uma metade da cidade à outra. Lá embaixo, o escuro do mar poluído.
Seu amor não seria inútil. Algo precisava ser feito. Seu amor não era lixo para ser jogado fora. Ela precisava entender.

Girou a direção, de uma vez. O carro derrapou e, de lado, capotou duas vezes no ar, voando por cima da proteção lateral da ponte. Ao se chocar com a água, abriu uma fenda espumada na escuridão que cobria o mar. O carro, indefeso, afundou.
Ele a fez entender: afogou-a em seus sentimentos poluídos.


P.S. 1: Agradecido.

7 comments:

andré said...

Boa, boa.

audacijr said...

Boazuda, boazuda...

Karlla said...

terrivel...
[Horrivel]
Nem a pior dor de barriga justifica esse final!
e da-lhe ficção!
:)

Flávio Elton said...

Do caralho!!!
O novo Guimarães Rosa!!!
Está revolucionando a gramática!!!

Thiala said...

Continuo achando que faltam os diálogos!

Paula said...

AXO Q TO PRECISANDO CAIR DA RIBANCEIRA E ME AFOGAR NUM MAR DE LAGRIMAS DERRAMADAS POR QUEM NAO DAR A MINIMA PRA MINHA EXISTENCIA.

BEIJOS...

Paula

Jessica Lara said...

Bom o começo...
Bom o meio...
e bom o fim!!!
hauHAuhauHAUhauHA
Gostei bastante ;D