Sunday, January 22, 2012

Malabaris anos 80.

O sétimo coquetel doce da noite amargava ao som de Unchain My Heart. Tudo começaria a rodar assim que ela levantasse da cadeira, mas não sabia disso ainda. Sairia dali com o primeiro que a convidasse para dançar, se é que em plenos anos 80 alguém ainda – já – faria isso. Escolhida para participar de uma propaganda da escola na época do ginásio, ainda notava muitos homens quebrarem o pescoço quando ela passava; mesmo assim, sempre duvidou de como parecia a olhos alheios. Os elogios próximos sempre tiveram interesses ocultos ainda que não conseguisse saber quais eram.

Na pista, pessoas dançavam como robôs, por causa da música ou da luz, o teor alcoólico não saberia mais dizer. No balcão, um Tom Cruise piorado fazia malabaris com garrafas de bebidas coloridas. À esquerda, um cara todo de branco com uma gravata preta parado no balcão. Ele olhou de lado, é agora. Se fez charmosa, bebericou o coquetel, o cara saiu com dois whiskys. Se ele soubesse o quão perto esteve... Não, ele não falaria nada.

Às vezes pensava ser tão bonita que intimidava os homens. Quando se arrumava, se arrumava de verdade. Vestido com ombreiras, sombra colorida, salto e permanente. Cachos azuis naturais, lábios louros e olhos rosados. Já sentia o ambiente muito mais aconchegante, as pálpebras pesadas e a saliva sumindo. Muito mais radiante, muito mais inteligente, muito mais ela. Cadê ele que não chega.

Não ele. Ele nunca ia chegar. Nunca mais. Teria que ser outro, que a achasse bonita. O Tom Cruise ainda tentava quebrar garrafas jogando-as para cima enquanto enchia copos para todos e para si mesmo. Bebia, jogava outra garrafa, enchia outro copo, jogava outra garrafa... e ela abriu os olhos deitada numa cama estranha, com ele do lado, não deitado, mas em pé.

De nada era o que teria imaginado para aquela noite. Sua cabeça doía, também de ressaca. Um curativo no lugar do topete da permanente arruinada, ela sentiu com os dedos. Tom Cruise pediu para ela não mexer, podia piorar. Aparentemente havia acertado uma das garrafas na cabeça dela, de tanto beber os próprios drinks. A culpa o levou junto na ambulância. Nada de traumatismo craniano, apenas dois pontinhos - quase um ponto e vírgula - e um desmaio, meio da pancada meio dos coquetéis. Ela gostou de ser salva pelo próprio algoz. Ele gostou de salvar a própria vítima.

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