Mesas vazias enchiam a cafeteria, quando entrei. Uma única mesa estava ocupada. Um jovem casal.
Sentavam de frente um para o outro. Ele, filmadora em mãos (uma Sony Handycam, penso) visor aberto e tudo, de costas. Ela, notebook na mesa entre os dois, conversa com a câmera. Seus lábios, rubros de maquilagem, produziam palavras mudas, descontraídas, gesticuladas. Os cabelos, negros, ondulavam com simpatia. Caras e bocas, caretas estiradas e línguas sapecas. Piscadas, olhos negros se esbugalham, se acalmam, piscam. Tudo em dobro - ela e o visor, de frente para mim.
Chuto que estão gravando um podcast sobre literatura, embora não conheça nenhum produzido por essas bandas, sei que o gênero têm se proliferado na internet. Eu jamais perguntaria, minha timidez só se põe a observar. Quem sabe um trabalho de faculdade? Não importando o que seja, o show continua. A jovem levanta, sai do enquadramento, volta. A empolgação com que ela se dedica ao projeto me comove. É como se assistisse aos bastidores de algo grande. Pela primeira vez, algum som chega até mim. Verdade que o café está vazio, mas tem barulho, não adianta explicar agora. A voz é anasalada, mas não muito fina, o que a deixava forte.
"Ah meo deos!" Assim, com ares de gíria. Só isso.
Calou-se. Olha atentamente para seu diretor, o de costas para mim... suponho que esteja falando alguma coisa agora. Só consigo ver o preto da camisa justa e os cabelos cortados de elfo. Calada, tira da manga um estojo de maquiagem, e começa a mágica, ali, na minha frente. Só então me ocorre o óbvio: era um teste. Senhoras e senhores tudo aquilo ao que eu assistia era um ensaio.
Agora ela já não olhava mais para a câmera. O visor era privilégio do diretor elfo, e os olhos da garota também. Ela deve ter percebido que eu observava o que acontecia, e uma ou duas vezes retribuiu o olhar - de maneira nenhuma me dando trela ou alguma abertura, que fique claro. Apenas pensava com os olhos e passava a vista por mim, como quem olha um relógio sem ver as horas. Por minha vez, para não constrangê-los ou me passar por louco, não mantinha meu olhar fixo neles mais do que o tempo que se leva olhando o sol.
De resto são detalhes. Outra câmera surgiu, agora uma fotográfica DSLR, em um tripé, também com o intuito de filmar. Novo visor, novos e rápidos testes. Zoom in, zoom out, mais caretas, os dedos entre os cabelos. Partia-os para um lado, ouvia o diretor, partia-os para o outro, prendia, soltava. Se decidiu pelo preso. Aparentemente a DSLR foi a escolhida para gravar. A outra jazia em cima da mesa, não sei se gravando, talvez pegando algum ângulo inusitado.
Olhei mais uma vez e, pelo visor, zoom nos lábios vermelhos-batom:
"Oi!"
Pedi a conta.
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